Três poemas de Mia Couto Espelho Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos. *** Identidade Preciso ser um outro para […]
Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu.Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo.A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
Preciso ser um outro para ser eu mesmoSou grão de rocha Sou o vento que a desgastaSou pólen sem insectoSou areia sustentando o sexo das árvoresExisto onde me desconheço aguardando pelo meu passado ansiando a esperança do futuroNo mundo que combato morro no mundo por que luto nasço(In “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”)
Entre o desejo de ser e o receio de parecer o tormento da hora cindidaNa desordem do sangue a aventura de sermos nós restitui-nos ao ser que fazemos de conta que somos.
___________________________Mia Couto, escritor moçambicano.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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