Faleceu Javier Rodas, referência da educação intercultural na fronteira trinacional, atuando em Puerto Iguazú, no lado argentino. Familiares do educador confirmaram seu falecimento na noite da quarta-feira (11). Javier Rodas estava internado no Brasil, em terapia intensiva com assistência mecânica, depois de ter sofrido um AVC, que provocou morte cerebral. O corpo será transladado para […]
Faleceu Javier Rodas, referência da educação intercultural na fronteira trinacional, atuando em Puerto Iguazú, no lado argentino.
Familiares do educador confirmaram seu falecimento na noite da quarta-feira (11). Javier Rodas estava internado no Brasil, em terapia intensiva com assistência mecânica, depois de ter sofrido um AVC, que provocou morte cerebral. O corpo será transladado para a cidade argentina da fronteira.
Na foto em destaque, o professor Javier Rodas e criança M’Bya Guarani em ação educadora – Foto: instagram / Javier Rodas
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“A mí me gusta ponerle el corazón a todo, porque yo no sé eso de hacer las cosas sin alma. A mí no me sale querer a medias, de no preocuparme por los que me importan, de no saber estar cuando me necesitan.. Y puede que también así se me rompa un poquito más seguido el corazón, pero es que de verdad a mí no me sale eso de no sentir demasiado, de no cuidar demasiado, de no querer demasiado” (Javier Rodas)
As palavras firmadas pelo educador se transformaram em referência de coerência na fronteira trinacional. Suas ações e seu cotidiano na comunidade são lembradas com respeito. “Javier Rodas foi muito mais que um diretor escolar: foi um construtor de pontes entre culturas”, comenta online o jornal La Voz das Cataratas, editado na cidade em que Rodas atuava.
Ele foi fundador e diretor da Escola Intercultural Bilingue (EIB) N° 941 , na Aldeia Mbya Guarani Jasy Porã, em Puerto Iguazú. Dedicou sua vida a uma educação com identidade, respeito e direitos. Seu trabalho cotidiano esteve sempre marcado pela defesa da língua, sua cosmovisão e o acesso real à educação pela comunidade dos povos originários.
Sua trajetória deixou instituições e caminhos abertos. Foi cofundador do BOP (Bacharelado de Orientação Polivalente) N° 111, em Fortín Mbororé, e do BOP N° 117, em Yryapú, áreas M’Bya em Missiones, AR, ampliando o mapa educativo em contextos onde a escola também é abrigo, pertencimento e futuro.
Em 2016, o Ministério de Educação argentino o distinguiu como “Maestro Ilustre” (Professor Ilustre) de Misiones, reconhecimento a uma tarefa silenciosa mas transformadora.
Em 2023 recebeu a distinção “Melchora Caburú” e o Prêmio Cadena Mundial de la Paz Melchora Caburú, pelo seu compromisso com a divulgação e defesa dos direitos dos povos originários e seu aporte à educação intercultural.
Autor e editor, em 2011 publicou um livro —com duas reedições posteriores — orientado a dar visibilidade à legislação vigente no âmbito internacional em relação aos direitos indígenas, uma ferramenta importante para a formação e a consciência social.
Outro livro que se destaca na produção editorial de Rodas é o “Diccionario Mbyá Ayvu / Español / Mbyá Guarani, que contém o “pentatracdutor Español, Mbya Guarani, Portugués e Inglés”, em parceria com Kuruay Poty Carlos Benitez, como destaca a professora Giane Lessa, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA.
“Esta semana, a Tríplice Fronteira perdeu um grande professor, conhecedor da língua e cultura Mbyá Guarani. Javier Rodas, Um professor que deu sua vida pelos Mbyá Guarani e suas crianças.”
A doutora conta que teve a oportunidade de colaborar com o censo para a criação da escola Jasy Porã, criada pelo educador, e de fazer algumas oficinas de desenho com as crianças. “A escola transbordava a alegria e a harmonia das crianças e seus docentes, inspirados pela personalidade única de Javier Rodas que reunia otimismo, determinação, generosidade e simplicidade: qualidades de um apreciador de Paulo Freire e de um homem que amava a vida”, diz Giane.
“Aguyevete, querido professor Javier Rodas. Não sei se é lícito mencionar quão prematura foi sua partida, mas sei que todos que o reconhecíamos, admirávamos e queríamos ficamos órfãos e choramos. Ficam seus exemplos e seus ensinamentos”, complementa emocionada.
A morte de Javier Rodas abre uma lacuna difícil de ser superada na fronteira trinacional. Puerto Iguazú se despede de um professor que ensinou pela conduta coerente e persistente.
“Seu legado vive em cada aula que ajudou a criar, em cada comunidade acompanhada e em cada estudante que aprendeu que educar também é respeitar”, é como o jornal Voz das Cataratas encerra sua nota sobre perda de personagem tão fundamental para a comunidade fronteiriça.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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