Neste mês, que tradicionalmente convoca à reflexão sobre os direitos das mulheres, o convite é para uma imersão no que a história oficial tentou apagar. Em sua obra de 1997, “Mulheres ‘, o autor uruguaio Eduardo Galeano aplica sua marca registrada: dar voz aos oprimidos e resgatar a história silenciada pelos séculos. Ao percorrer diferentes […]
Neste mês, que tradicionalmente convoca à reflexão sobre os direitos das mulheres, o convite é para uma imersão no que a história oficial tentou apagar.
Em sua obra de 1997, “Mulheres ‘, o autor uruguaio Eduardo Galeano aplica sua marca registrada: dar voz aos oprimidos e resgatar a história silenciada pelos séculos.
Ao percorrer diferentes épocas e continentes, o livro atua como um manifesto contra o esquecimento. Galeano denuncia como o papel feminino foi sistematicamente relegado ao segundo plano em momentos cruciais da experiência humana:
– Ciência: Descobertas fundamentais ignoradas ou creditadas a terceiros.
– Conflitos: Atuações em linhas de frente e resistências raramente documentadas.
– Política: Lutas por direitos básicos que foram deliberadamente varridas do registro oficial.
Pode surgir o questionamento: em um período dedicado a realçar vozes femininas, por que recorrer à obra de um homem? A resposta reside na potência da concepção de mundo de Galeano. O autor possuía a rara habilidade de transitar entre o local e o universal, conectando as dores e glórias das mulheres latino-americanas a um contexto global de resistência.
Galeano não escreve sobre a mulher sob uma perspectiva de “concessão”, mas sim sob a ótica da justiça histórica. O fato de a obra ser assinada por ele torna-se secundário diante do compromisso com a causa: o foco deve recair sobre a perspectiva de quem escreve e o rigor com que busca a verdade dos vencidos. .
A própria organização do livro dita o ritmo da reflexão. Diferente de tratados densos, “Mulheres” convida à leitura cotidiana e pausada. A experiência de ler uma página por dia — exatamente o formato proposto pela obra — permite que cada folha virada seja o resgate de uma uma mulher e sua verdadeira história.
Ler uma mulher por dia é, em última análise, um exercício de reeducação do olhar. É descobrir que, onde os livros didáticos registraram um vazio, na verdade pulsava uma presença feminina vibrante e transformadora.
Eduardo Galeano não era apenas um contador de histórias; foi, fundamentalmente, um jornalista, poeta e pensador marxista. Sua trajetória é prova de sua coragem: seu clássico “As Veias Abertas da América Latina” foi alvo de censura brutal durante as ditaduras militares no Uruguai, Chile e Peru, evidenciando o temor que suas palavras impunham ao poder.
Vale a pena ler Galeano em qualquer época do ano. E, especialmente agora, vale a pena descobrir as mulheres sobre as quais ele escreve, devolvendo-lhes o lugar de destaque que a história lhes negou por tanto tempo.
Fica, portanto, a dica de leitura. .
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Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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