– Um texto de Tati Lopatiuk – Essa dor que chegou agora. Pode ser que não demore a ir embora. Era uma dor que vinha em ondas e caminhava pelo meu corpo todo em procissão. Sabe como? Eu sentia aquela dor andando por mim inteira. Não sei quando começou, verdade. Mas a coisa é […]
Essa dor que chegou agora. Pode ser que não demore a ir embora. Era uma dor que vinha em ondas e caminhava pelo meu corpo todo em procissão. Sabe como? Eu sentia aquela dor andando por mim inteira. Não sei quando começou, verdade. Mas a coisa é que em poucos dias eu já nem podia lembrar como era a minha vida antes dela. Apalpava os lugares por onde ela passava. Boca do estômago, até onde alcançava nas costas. Deitava em cima dela na cama, de bruços a dor no peito amainava quando eu a sufocava contra o colchão. Brincávamos de pega-pega, eu e ela. Queria saber antes da dor onde ela me acertaria. Errava sempre. Deixei ela se tornar minha companheira. Em momentos de indecisão, colocava a mão ao lado do umbigo, na barriga, e sentia pulsar a única certeza que me dizia que eu ainda estava ali. Com dor e com ressalvas, mas viva. Não era a morte ou algum aviso mais severo. Era apenas uma dor. Simples e constante, humilde até. Uma dor que não desistia de mim. Desci correndo do ônibus e correndo fui por alguns poucos metros até parar, sem ar. Me recompus e fingi que dor nenhuma existia. Já fez isso também? Fingir, para ver se a dor desaparecia. Me aprumei em meus saltos, um calor desse requer um pouco mais de postura, caso contrário a gente desaba na primeira esquina. Calor e dor, andando fingindo eu quase esquecia das duas coisas. Parei com a brincadeira quando percebi que ela poderia ir embora. Ela, a dor. Notei que não queria isso. Foi a primeira vez que percebi o quanto eu dependia dela para me sentir viva. Não quis contar para ninguém o que sentia. Ninguém poderia entender e eu tinha ciúmes só de pensar que alguém entenderia, então qual era o sentido? Usei aquilo como um escudo que me tornava mais valente perante os outros. Na minha cabeça, é claro. Eu e minha dor, eu e minha dor, eu e minha dor. As estações passaram, uma após a outra. Meses e anos. Pulei na piscina com dor, me embrulhei em cachecóis e blusões com dor. Viajei com dor, amei e passei a detestar, com muita dor. Me acostumei com ela e soube que seria assim para sempre. Aceitei. Passei a gostar de mim assim, passei a me reconhecer assim. A menina que sempre carregava consigo uma dor. Um dia, aquecida nos cobertores, levei um susto que me gelou o corpo todo. A dor tinha passado. Assim, do nada, ela foi embora. Procurei por todos os lugares, sendo os lugares tão poucos. Não estava nas costas e nem na barriga, não tinha corrido para os braços e nem ido para o pescoço. Suspirei, lembrando da vez que a dor tinha ido para o pescoço e eu me amedrontara imaginando que subiria para a cabeça, quando então eu enlouqueceria. Mas já não tinha enlouquecido? Voltei a dormir. No outro dia, acordei cedo, pus a mesa do café. Sozinha, sozinha mesmo, percebi no segundo gole de chá. A dor tinha desaparecido. Sem vestígios e sem explicações. Não é estranho como tudo vai ser sempre o mesmo até que não é mais? Me ajeitei na cadeira, incomodada. Dei um tempo para a dor repensar o equívoco de sua decisão. Me entortei na cadeira, a provocando. Aqui perto da costela, afundei a mão até onde pude, cavando seu caminho. E nada. Nada. Ah, Deus, então era isso. Aquela dor tinha ido embora, ponto final. Não havia muito o que fazer. Eu teria que procurar outras. ________________________________________ Tati Lopatiuk é escritora em São Paulo. Texto extraído da página da autora em Medium e publicado na revista Escrita 50.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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