– Um conto de Joel Rufino dos Santos – Era uma vez um roceiro que tinha um rádio. Que foi presente de seu pai. Era para o roceiro ouvir os jogos do Brasil na Copa do Mundo. No primeiro jogo o Brasil empatou. O roceiro ficou muito aborrecido. Ele só queria que o […]
Era uma vez um roceiro que tinha um rádio. Que foi presente de seu pai. Era para o roceiro ouvir os jogos do Brasil na Copa do Mundo. No primeiro jogo o Brasil empatou. O roceiro ficou muito aborrecido. Ele só queria que o Brasil ganhasse. Aí, disse para a mulher: – Sinhá, o nosso rádio não presta. O Brasil só empatou. Vou trocar por coisa melhor. E saiu. Ia passando um tropeiro com sua tropa de burros. O roceiro perguntou: – Troca um burro por um rádio? O tropeiro trocou. Levou o rádio e deixou um burro chamado Roucão. Mas Roucão era demais de burro. Aí o roceiro levou Roucão para a feira. Para ver se conseguia trocar por coisa melhor. Na feira, tinha um menino com um pato no colo. O menino apertou a barriga do pato. Saiu um montão de moedas. Todas de ouro. Como se chama esse pato? – perguntou o roceiro. – Se chama Uma-vez-só. – Troca pelo meu burro Roucão? – O que faz o seu burro? – perguntou o menino. – Fala 432 línguas. O menino trocou. O roceiro saiu todo feliz. – Agora eu fico rico! – disse o roceiro. E apertou a barriga do pato. Apertou que apertou. Saiu foi ouro nenhum. Foi reclamar para o menino. Mas o menino explicou: – Ele só faz as coisas uma vez. Por isso se chama Uma-vez-só. O roceiro quis destrocar, mas o menino encerrou a conversa: – Trocou, ta trocado! Ia passando um violeiro. – O senhor não pode me dar comida? – gritou ele para o roceiro. O roceiro respondeu: – Só tenho esse pato… mas troco por sua viola. – Minha viola é encantada – disse o violeiro. – E o que faz uma viola encantada? – Ela toca sozinha, mas como estou com fome, troco pelo pato. E o sorriso do roceiro saiu com a viola. Ela tocou que tocou. Tanto que o roceiro não agüentou. Tapou os ouvidos, guardou a viola no baú. Adiantou? Qual nada! – CHEGA! Ficou esperando na estrada até que passou um mágico. – Quer vender a viola? – Troco por sua cartola. – Sem minha cartola estou perdido, mas troco pelo meu cavalo invisível. O roceiro não enxergava cavalo nenhum. Mas trocou. E se arrependeu loguinho. Não sabia onde o cavalo estava. Ficou com a testa cheia de calos, dos tombos que levou tentando montar no cavalo. Vai daí que passou um matuto. Escatapum! Deu uma trombada no cavalo invisível. – O que é isso? – perguntou o matuto. – É um cavalo que não se vê. Mas garanto que é bom. Quer trocar? O matuto matutou que matutou. Estava doido pelo cavalo invisível. Nunca tinha visto um, na sua vida de matuto. Remexeu que remexeu na sacola. – Só tenho um rádio… E o roceiro deu o cavalo. E o matuto deu o rádio. Era o rádio que o seu pai lhe tinha dado. O roceiro ligou o rádio. E ouviu que o jogo ia começar de novo. ___________________________________________ Joel Rufino dos Santos, escritor brasileiro (1941-2015). Conto publicado no livro “Mania de Trocar”
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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