Preso por três meses após o AI-5, autor de ‘1968 — O ano que não terminou’ será velado quarta na ABL O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro (RJ). A causa foi uma pneumonia, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ele era […]
Preso por três meses após o AI-5, autor de ‘1968 — O ano que não terminou’ será velado quarta na ABL
O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro (RJ). A causa foi uma pneumonia, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ele era membro. O corpo será velado na quarta-feira (23) na sede da Academia, no centro do Rio, e sepultado no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista.
Morre aos 95 anos o jornalista e escritor Zuenir Ventura, imortal da ABL – Foto: Leo Martins/arquivo
Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931 em Além Paraíba (MG), filho de José Ventura, pintor de paredes, e Herina de Araújo, dona de casa. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo (RJ). Quando adolescente, conseguiu bolsa no colégio em troca de dar aulas às crianças do primário, e foi ali que nasceu a vontade de ser professor. Aos 20 anos, foi para o Rio cursar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde teve aulas com Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli.
A entrada no jornalismo veio por indicação do professor Hélcio Martins, que lhe arrumou uma vaga de arquivista na Tribuna da Imprensa. Em 1960, quando a redação procurava alguém para escrever sobre a morte de Albert Camus, Zuenir se ofereceu. Do arquivo, passou à reportagem e nunca mais saiu das redações.
Depois de uma temporada em Paris como bolsista do Centro de Formação de Jornalistas, Zuenir assumiu uma sequência de postos de comando: editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação da Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe da sucursal carioca da Visão. Em 1967, foi um dos criadores do jornal alternativo O Sol.
Em dezembro de 1968, logo após a decretação do AI-5, foi preso pela ditadura militar. Ficou três meses na cadeia, sem explicações, dividindo cela com o psicanalista Hélio Pellegrino e outros presos classificados como subversivos. Anos mais tarde, relataria que não foi torturado, mas conviveu o tempo todo com o medo.
Passou ainda pela Veja, pela IstoÉ e pelo Jornal do Brasil, e em 1999 estreou como colunista d’O Globo, veículo onde permaneceu até o fim da vida.
Aquela vivência com a agitação política e cultural dos anos 1960 se converteria em seu livro mais conhecido, “1968 — O ano que não terminou”, lançado em 1988 e reeditado desde então. A obra dissecou, duas décadas depois, o país que entrava na fase mais violenta do regime militar, e inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, exibida em 1992. Em 2008, Zuenir voltou ao tema em “1968: O que fizemos de nós”, em que confrontou os ideais daquela geração com o comportamento dos jovens do início deste século.
Em 1989, o jornalista passou um mês no Acre apurando o assassinato do seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes (1944-1988), morto em dezembro do ano anterior. A série que escreveu para o Jornal do Brasil venceu o Prêmio Esso e o Vladimir Herzog de Jornalismo e foi ampliada no livro “Chico Mendes — Crime e castigo”, publicado em 2003.
O mesmo método produziu “Cidade partida”, de 1994. Depois da chacina em que policiais mataram 21 moradores de Vigário Geral, na zona norte do Rio, em 1993, Zuenir voltou várias vezes à comunidade para ouvir quem vivia ali. O livro retrata uma cidade separada por barreiras socioeconômicas e acompanha a organização da sociedade civil contra a violência, sendo reconhecido com o Prêmio Jabuti e virando tema recorrente de seminários e debates sobre segurança pública.
O apego à apuração de campo era parte do método. “Nada substitui o olho no olho”, disse ele em entrevista à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em 2008, ao defender que o silêncio de um entrevistado costuma dizer mais que as palavras. Costumava descrever o próprio trabalho como uma garimpagem modesta: reunir a matéria-prima que o historiador aprofundaria depois.
Por décadas, Zuenir deu aulas na Escola de Comunicação da UFRJ e na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi). A trajetória voltada a questões sociais e ambientais rendeu distinções. Em 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) o apontou entre os cinco jornalistas que mais haviam contribuído para a defesa dos direitos humanos no país em 30 anos. Em 2010, foi eleito jornalista do ano pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Em 2014, foi eleito para a ABL, na cadeira deixada pelo dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014). Na posse, foi recebido por Cleonice Berardinelli, sua antiga professora e, dali em diante, colega de Academia. Em 2022, aos 91 anos, recebeu o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, pela versão ampliada de “Minhas histórias dos outros”, em que reuniu encontros com Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.
Zuenir Ventura deixa a mulher, Mary Ventura, e os filhos Mauro, jornalista, e Elisa, editora.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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