Há quem atravesse fronteiras em busca de novas oportunidades, quem parta por amor e quem simplesmente deseja conhecer outras realidades. Mas mudar de país é também aprender a conviver com ausências, descobrir novas formas de pertencimento e perceber que, nem sempre, existem palavras capazes de traduzir o que se sente. Foi para dar voz a […]
Há quem atravesse fronteiras em busca de novas oportunidades, quem parta por amor e quem simplesmente deseja conhecer outras realidades. Mas mudar de país é também aprender a conviver com ausências, descobrir novas formas de pertencimento e perceber que, nem sempre, existem palavras capazes de traduzir o que se sente. Foi para dar voz a essas experiências que nasceu o livro “Escrever o desarraigo: narrativas de mulheres migrantes”.
Resultado de projeto de extensão da UNILA, “Escrever o desarraigo” reúne poemas e narrativas sobre vivências entre países, línguas e culturas – Divulgação
A publicação reúne poemas e narrativas de mulheres da Argentina, Brasil, Colômbia e Venezuela, que encontraram na escrita uma maneira de revisitar suas histórias. Organizado pela professora da UNILA Jorgelina Tallei, o livro foi publicado pela editora Letraria, com recursos do edital de Produtos Extensionistas da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX), e está disponível gratuitamente em formato digital.
O livro é resultado do projeto de extensão “Laboratório de Escrita e Edição” que, ao longo de 2025, ofertou oficinas online de leitura e escrita para mulheres migrantes que viviam em diferentes regiões do Brasil. A proposta do projeto era criar um espaço de expressão e troca de experiências, no qual as participantes pudessem transformar suas trajetórias migratórias em narrativas literárias, com liberdade para escrever em português, espanhol ou portunhol. “A ideia era propor uma escrita em que a gente não se agarrasse a seguir uma norma, mas que a língua fluísse de acordo com a temática, a criatividade e o encontro proposto”, salienta Jorgelina, que coordenou o projeto conjuntamente com o editor de publicações da UNILA, Nelson Figueira Sobrinho.
Para a argentina Fabiana Monti Audero, que vive no Brasil desde 2015, participar do projeto significou fazer um movimento pouco habitual em sua trajetória profissional. Jornalista com duas décadas de experiência, Fabiana encontrou nas oficinas uma oportunidade para deixar de contar apenas as histórias dos outros para olhar para a sua.
“Uma das descobertas mais fortes foi me reconhecer como migrante. Mesmo sendo argentina e morando há onze anos no Brasil, ainda não tinha percebido isso de forma tão intensa. Compartilhar experiências de vida faz você se sentir acolhida e também te convida a refletir sobre a sua própria trajetória, o que foi extremamente gratificante”, contou.
Em seus textos, Fabiana apresenta a migração como uma experiência que não significou abandonar suas raízes, mas ampliar seus vínculos e afetos. Uma perspectiva que reflete os motivos que a levaram a escolher o Brasil como lar. “A migração foi uma escolha de vida e não uma tentativa de fugir de situações difíceis, como guerras ou fome. Foi simplesmente porque sempre me senti muito acolhida no Brasil, com a sua cultura, a sua gente e o seu estilo de vida”, disse.
Ainda assim, Fabiana reconhece que viver entre dois países tem suas contradições. “Morar entre dois países agrega muitas vivências e possibilidades, embora, no plano afetivo, por vezes faça falta, já que eu gostaria de ter todos os meus afetos no mesmo lugar”, comenta Fabiana, que atualmente mora em Porto Alegre e atua como professora de Espanhol.
A colombiana Lizeth Cuervo também encontrou nas oficinas um convite para olhar para si mesma. Natural de Bogotá, Lizeth veio para o Brasil em 2019 para cursar Ciência Política e Sociologia na UNILA. Atualmente, ela atua como coordenadora de uma organização social em Florianópolis. Em “Carta para Lizeth”, um dos quatro textos de sua autoria presentes no livro, ela escreve para a mulher que era antes de deixar seu país natal. A carta é marcada pelo reconhecimento de medos, perdas, conquistas e, principalmente, da coragem necessária para partir. “Às vezes, na pressa de viver, a gente não para para refletir sobre essas vivências. Escrever sobre isso não foi um processo fácil, mas é importante reconhecer as conquistas que consegui alcançar. Acho que fala muito sobre a coragem que a gente tem às vezes e que não valoriza”, observa.
Outro aspecto presente em seus textos é a relação afetiva com as palavras. Lizeth reflete sobre como a convivência entre o português e o espanhol transformou sua maneira de se expressar e de se relacionar. É justamente nas palavras que ela encontra uma maneira de preservar os vínculos com suas origens e, ao mesmo tempo, acolher as transformações vividas desde que deixou a Colômbia. “As palavras me levam lá, as palavras não me deixam soltar e também não quero que me deixem soltar. Isso reafirma nossa identidade”, afirma.
Para ela, migrar significou descobrir novas versões de si mesma. “A Liz que ficou, a Liz que escolheu fazer as malas e sair, a Liz que mora aqui e a Liz que se movimenta, seguindo o que ela acha que é o certo para a vida dela. Não deixa de ser a mesma Liz, só que são versões novas.” E conclui: “As palavras têm um poder grande e carregam nossa vida. Elas reafirmam minha identidade e constroem minhas diversas0 versões.”
Embora a migração fosse o elemento comum entre as participantes, os encontros também revelaram que não existe uma experiência única de ser migrante. Cada mulher trazia consigo diferentes motivos para partir, dificuldades para se adaptar, formas de sentir saudade e maneiras de reconstruir a vida. “Alguns dos momentos mais marcantes aconteceram justamente quando as mulheres começaram a se reconhecer nas histórias compartilhadas. Tivemos momentos em que elas se emocionaram muito”, conta a professora Jorgelina.
Outra experiência lembrada pela docente é a de uma participante japonesa, recém-chegada ao Brasil, que iniciou as oficinas falando pouco português. Ao longo dos encontros, o grupo acompanhou suas descobertas linguísticas e a maneira como ela passou a transitar entre japonês, inglês, português e espanhol. Embora tenha decidido não publicar seus textos no livro, sua participação marcou o projeto e evidenciou como a relação com uma nova língua também faz parte da experiência de migrar.
Para Jorgelina, a literatura possibilitou que as participantes refletissem sobre suas experiências e seus lugares no mundo, sem precisar escolher uma língua única. “Não foi uma escolha pensada, foi uma escolha que se foi dando no processo, de não escolher ou não adotar uma língua e preferir as misturas, e não uma língua única”, explica. Segundo ela, essa liberdade de expressão permitiu que as narrativas fossem construídas a partir das diferentes vivências, memórias e referências culturais de cada mulher. “Para algumas participantes, essa foi a primeira experiência de escrita literária. Ou seja, o projeto possibilitou que elas criassem a coragem de escrever, de se pensar”, disse a docente.
O projeto de extensão terá continuidade em uma nova etapa, agora aberta a todas as mulheres interessadas em escrever sobre suas próprias experiências. O primeiro encontro está marcado para 11 de novembro, e as inscrições podem ser feitas gratuitamente por meio de formulário online.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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