Texto publicado na revista Escrita, edição 02.. . O dia amanheceu fresquinho. O sol espião secou as lembranças do chuvisco que tinha encharcado as duas pontas de cigarros, sinais únicos da tua passagem pela madrugada da minha vida. . A água morna escorreu gostosa pelo meu corpo. A espuma escapou para o ralo, levando partes […]
. O dia amanheceu fresquinho. O sol espião secou as lembranças do chuvisco que tinha encharcado as duas pontas de cigarros, sinais únicos da tua passagem pela madrugada da minha vida. . A água morna escorreu gostosa pelo meu corpo. A espuma escapou para o ralo, levando partes de mim. Quisera continuar ali, a escamar-me. . Vamos, mãe! .Abandonei a terapia. Um dia a mais, só isso. Cumpre vivê-lo! Borrifei-me a fragrância de todos os dias, que minha pele não absorveu. Vesti-me com o jeans de ontem. Escolhi a blusa. Calcei o que havia. Do espelho triste, meus olhos espreitaram-me. Meninas caladas. . Pálpebras sofridas. Sujeitei meus cabelos. Cansados, entregaram-se. . Respirei fundo na janela aberta para o nada. Peguei bolsa, chaves, óculos pretos. Saí. . Conversei na escola. Sorri para a pedagoga. Repeti beijos no rosto lindo de minha amada. . Segui. . Desculpei-me no escritório. O atraso seria descontado. Transladei os papéis acumulados no canto esquerdo da mesa. Acessei minha caixa de correio. Notícias do Congo: botaram fogo em casas, crianças morreram. “Mas não tem nada não, a Embaixada Brasileira diz que vai resgatar a gente…” Deveria arrepiar-me. Meu irmão corre perigo. Mas, não! Nem respondo. . Tenho a boca seca. Vou em busca de ar. A manhã já está quente. Nuanças verdes cobrem Vila Yolanda. Em breve os flamboaiãs… . Dormes, certamente, dormes! Teu dia há de ser poético. Versos em reversos esculpidos. Hás de rir quase a sufocar em tosse crônica. Tragarás a necessária fumaça sem culpa. Confessor e cúmplice de ti mesmo. Repudio-te! Retumba em meus ouvidos a desgraçada voz da tua alma errante. Incessantes adeuses da eterna despedida. Vai-te! Nada há a devolver- te. Não se quebra o cristal que em minha face brilha.
. Manhã de 28/07/06
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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