Opinião de Cláudio Siqueira (*) – O futebol brasileiro vive uma crise de identidade que vai além das quatro linhas. A metáfora clássica do “gigante adormecido”, ou, mais precisamente, de um gigante que perdeu o rumo após se embriagar com o próprio sucesso, ilustra o atual estágio da Seleção Brasileira masculina.
Enquanto o mundo aguarda pelo despertar do país que transformou o esporte em arte, a estrutura que sustenta nosso futebol desmorona sob o peso da elitização e da lógica predatória do mercado internacional. Para que o gigante recupere a sobriedade, a solução não virá dos gabinetes privados da CBF, mas de uma política pública de esportes popular, democrática e estruturada pelo Estado.
Futebol 1 – Ilustração de Cláudio Siqueira (**)
É preciso compreender que a natureza privada da CBF não a impede de manter relações financeiras com o poder público nem de se beneficiar, direta ou indiretamente, de recursos e benefícios públicos. O Portal da Transparência do Governo Federal registra a entidade como associação privada sem fins lucrativos e beneficiária de renúncias fiscais, além de informar a existência de contratos firmados com o Poder Executivo federal. O Tribunal de Contas da União também registrou o patrocínio da Petrobras e da BR Distribuidora à Copa do Brasil por intermédio de uma empresa que explorava direitos comerciais cedidos pela CBF. Os pagamentos não foram feitos diretamente à Confederação, mas à empresa intermediária, para o patrocínio de uma competição de titularidade da CBF. Sua condição privada não a separa do Estado quando há dinheiro, infraestrutura e serviços públicos envolvidos. A separação aparece principalmente quando se discutem o controle social, a transparência e a definição das prioridades do futebol brasileiro.
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A lógica da “commoditização” do talento

Nas últimas décadas, o Brasil consolidou-se como um dos principais exportadores de jogadores de futebol do planeta. Em 2025, no futebol profissional masculino, os clubes brasileiros lideraram o número de transferências internacionais de saída, com 1.005 transferências para equipes estrangeiras, segundo a FIFA. Sob a ótica econômica tradicional, isso poderia parecer um sucesso. Sob a perspectiva da soberania e do desenvolvimento esportivo, representa uma tragédia.
O país passou a funcionar segundo a lógica da exportação de commodities agrícolas: plantamos o talento bruto em nossas terras, mas o entregamos a preço de banana para ser lapidado e usufruído pelos centros hegemônicos da Europa. Jovens entram no circuito internacional de negociações ainda na adolescência e deixam o futebol brasileiro antes de criarem raízes junto ao torcedor local.
Esse fenômeno rompe o pacto de identidade entre o povo e a Seleção. Sociólogos do esporte apontam a representatividade e o pertencimento como pilares da saúde cultural de uma modalidade. Quando o jogador da Seleção se torna um produto moldado pelo ecossistema europeu desde a adolescência, o futebol brasileiro perde parte de sua essência criativa, marcada pelo drible, pelo improviso e pela ginga, para se adequar ao pragmatismo tático estrangeiro.
A intervenção estatal, por meio de reformas legislativas que protejam as categorias de base e incentivem a permanência dos atletas no mercado interno, torna-se urgente para estancar essa sangria.
A presença do Estado não significa administrar clubes, convocar jogadores ou determinar modelos de jogo. Significa garantir acesso, infraestrutura, proteção aos jovens atletas e condições materiais para que o futebol continue pertencendo ao povo brasileiro.
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A periferia como incubadora e a morte da várzea

Historicamente, o “Joga Bonito” não nasceu em escolinhas particulares de futebol com mensalidades caras. Nasceu na várzea, nos terrenos baldios e nas ruas das periferias brasileiras.
Estudos nas áreas da Educação Física e das Ciências do Movimento relacionam o jogo livre e desestruturado ao desenvolvimento da inteligência motora, da percepção espacial, da capacidade de improvisação e da tomada rápida de decisões.
O ambiente da rua exige que a criança supere obstáculos físicos e espaciais imprevisíveis. O piso irregular, as traves improvisadas, os espaços reduzidos e as regras adaptadas obrigam o jogador a encontrar soluções próprias. Essa experiência contribuiu para a formação da inteligência tática e da capacidade de drible que notabilizaram atletas como Garrincha, Pelé e Romário.
O avanço da especulação imobiliária nas grandes cidades e a gourmetização do esporte sufocaram esses espaços de lazer gratuito. O futebol foi privatizado.
Hoje, para jogar em um ambiente seguro e com infraestrutura adequada, a criança precisa pagar. Isso cria um filtro socioeconômico perverso: limitamos o surgimento de novos craques à parcela da população que consegue arcar com os custos do esporte transformado em mercadoria.
É nesse ponto que o Estado se torna indispensável. A criação de uma política pública massiva de esporte, voltada à revitalização de campos comunitários, à construção de vilas olímpicas nas periferias e ao fortalecimento do esporte escolar como direito constitucional, conforme prevê o artigo 217 da Constituição Federal, constitui o caminho para democratizar o acesso.
Essa política precisa garantir manutenção, iluminação, segurança, profissionais qualificados e participação das comunidades na gestão dos espaços. Construir quadras e abandoná-las depois de uma inauguração não constitui uma política esportiva.
O esporte deve ser tratado como instrumento de inclusão social, educação e promoção da saúde pública, não apenas como um negócio multimilionário.
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Devolver o futebol ao povo

A crise da Seleção Brasileira não decorre da falta de matéria-prima. O Brasil continua sendo um celeiro inesgotável de talentos. A crise é de gestão e de propósito.
O futebol nacional foi sequestrado por uma elite burocrática e por empresários interessados no lucro imediato, em detrimento do desenvolvimento social e cultural do esporte. Os atletas são formados para o mercado exterior, enquanto os campos comunitários desaparecem, o esporte escolar perde espaço e o torcedor se distancia dos jogadores que deveriam representá-lo.
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A CBF ocupa uma posição privilegiada dentro dessa estrutura. Administra a Seleção Brasileira e as principais competições nacionais, utiliza símbolos que pertencem à história do país, beneficia-se de renúncias fiscais e possui contratos registrados com o Poder Executivo federal. A Copa do Brasil, competição de titularidade da CBF, também já recebeu patrocínio de empresas estatais por intermédio de uma empresa privada que explorava direitos comerciais cedidos pela entidade. Mesmo assim, a CBF permanece organizada como entidade privada, com reduzida participação popular nas decisões que determinam os rumos do futebol brasileiro. O dinheiro público exige responsabilidade pública.
Para que o gigante brasileiro cure sua ressaca e volte a caminhar com firmeza, orgulhando seu povo e encantando o mundo, é preciso radicalizar sua democratização. O futebol precisa voltar a ser popular.
Somente por meio de uma política estatal forte, que compreenda a bola como patrimônio cultural e social da nação, será possível resgatar nossa identidade. Isso exige investimento público, proteção às categorias de base, fortalecimento dos campeonatos nacionais, preservação da várzea e acesso gratuito ao esporte nas escolas e periferias.
A força do futebol brasileiro nunca esteve nas cifras dos bancos europeus, mas na poeira dos campos de terra batida espalhados por todo o país.
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(*) Claudio Siqueira é designer gráfico, editor de vídeo, cidadão iguaçuense, graduando de Antropologia e Teologia. Opinólogo nas horas vagas. Contato: c.siqueira.cc@gmail.com
|(**) Ilustração : Arte autoral, digital de técnica mista de Claudio Siqueira (Uso de assistência de IA para finalização).