Poema publicado pela primeira vez em 1945. O último dia do ano Não é o último dia do tempo. Outros dias virão E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, Farás viagens e tantas celebrações De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia E coral, Que o […]
O último dia do ano Não é o último dia do tempo. Outros dias virão E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, Farás viagens e tantas celebrações De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia E coral, Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, Os irreparáveis uivos Do lobo, na solidão. O último dia do tempo Não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida Onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, Uma mulher e seu pé, Um corpo e sua memória, Um olho e seu brilho, Uma voz e seu eco. E quem sabe até se Deus… Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte, Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, E de copo na mão Esperas amanhecer. O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, O recurso da bola colorida, O recurso de Kant e da poesia, Todos eles… e nenhum resolve. Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. O corpo gasto renova-se em espuma. Todos os sentidos alerta funcionam. A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida. A vida escorre da boca, Lambuza as mãos, a calçada. A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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