Trecho retirado do livro “De pernas pro ar”, de Eduardo Galeano. tradução Sergio Faraco. L&PM, 1998. Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm tempo para perder tempo. Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm silêncio e nem podem comprá-lo. Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm pernas que se esqueceram de andar, como […]
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm tempo para perder tempo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm silêncio e nem podem comprá-lo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm pernas que se esqueceram de andar, como as asas das galinhas, que se esqueceram de voar.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que comem lixo e pagam por ele como se fosse comida.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm o direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm liberdade senão para escolher entre um e outro canal de televisão.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que vivem dramas passionais com as máquinas.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que sempre são muitos e sempre estão sós.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não sabem que são pobres.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
Assine as notícias da Guatá e receba atualizações diárias.