Série de entrevistas reúne artistas e ativistas indígenas e retoma diálogos sobre criação, luta e redes coletivas. O podcast Nhexyrõ: artes indígenas em rede lançou uma nova temporada dedicada ao legado e à memória de Jaider Esbell, uma das principais referências da arte indígena contemporânea no Brasil. Disponível no Spotify e no Youtube, a série retoma o formato […]
Nhexyrõ é uma palavra em Guarani que pode ser traduzida como rede de conexões, caminhos ou trajetos. A proposta do podcast se ancora justamente nessa ideia de circulação de saberes e fortalecimento de vínculos, inspirada em práticas ancestrais dos povos indígenas. A nova temporada é conduzida pela artista Brisa Flow e pelo curador e educador Idjahure Terena, que recebem convidados de destaque da arte indígena para conversas sobre estética, política e território.
O significado do nome do podcast orienta o espírito do projeto. O artista e professor Guarani Mbyá Verá Tupã resume: “viver sozinho é muito difícil, melhor é estar junto, fortalecer as iniciativas de colaboração mútua.” Segundo a equipe, o conceito vai além da convivência e alcança uma dimensão espiritual, como explica Jerônimo Verá Tupã: “Nhexyrõ significa ligar nosso espírito ao espírito de Nhanderú, que por sua vez é ligado a tudo que existe. Ayvu Nhexyrõ é muito sagrado, é estar conectado um ao outro.”
A primeira convidada da temporada é Zahy Tentehar, artista indígena premiada com o Prêmio Shell de Teatro na categoria Melhor Atriz em 2023 e homenageada em 2025 pelo Theatro São Pedro com uma placa permanente. Filha de Azira’i, ela é ativista, artista plástica, diretora, cantora e atriz, com trajetória que parte da Reserva Indígena Cana Brava, no Maranhão, para festivais de teatro no Brasil e no exterior.
Uma das criadoras do podcast e cofundadora da produtora Sem Início Sem Fim, Mishta destaca que o projeto dialoga diretamente com o pensamento de Jaider Esbell. “Para ele, esse projeto significava ampliar a discussão, ampliar a reflexão e ampliar a conexão entre os artistas indígenas do presente. Fortalecer a rede de conexões é fortalecer a luta indígena por causas tão importantes, como dignidade, território, ancestralidade, meio ambiente.”
Mishta também recorda a centralidade da arte no pensamento de Esbell. Para ele, a arte “é a ferramenta para atrair apoio para a resistência e sobrevivência dos povos indígenas, modos de viver e fazer, cosmovisões, riqueza cultural no mundo contemporâneo”. A produtora ressalta ainda que refletir sobre os processos criativos é parte essencial do trabalho artístico: “Para isso serve essa série de diálogos, para ampliar as nuances da produção artística indígena contemporânea.”
O projeto Nhexyrõ é uma realização das produtoras Sem Início Sem Fim e Outro Acontecimento, em parceria com o Governo Federal, com financiamento do Pró-Cultura RS por meio do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB). Os episódios estão disponíveis nas plataformas Spotify e YouTube.
A equipe do podcast reúne nomes de destaque da arte indígena contemporânea. Brisa Flow, também conhecida como Brisa de la Cordillera, é cantora, compositora, poeta, produtora musical e ativista do povo Mapuche, além de uma das principais expoentes do futurismo indígena no Brasil. Já Idjahure Terena, dos povos Terena e Kadiwel, é escritor, editor, poeta, tradutor e antropólogo, com atuação no campo cultural e na comunicação indígena, incluindo a Rádio Yandê.
O design de áudio é assinado por Oderiê, artista indígena do povo Charrúa, cuja obra transita entre música, audiovisual e artesanato, articulando ancestralidade e vivência urbana. A identidade visual do projeto é de Gustavo Caboco, do povo Wapichana, artista que trabalha com múltiplas linguagens para refletir sobre memória, deslocamento e (re)territorialização dos corpos indígenas.
A produção executiva é assinada por Mishta e Manatit, que integram a produtora Sem Início Sem Fim. A trilha sonora do programa é original e parte de um sample criado por Kevin Brezolin a partir de uma captação de áudio realizada na Tekoa Guaviraty Porã, aldeia Mbyá localizada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
A nova temporada do podcast Nhexyrõ reúne artistas, cineastas, pensadoras e lideranças indígenas de diferentes povos e territórios, ampliando o debate sobre arte, memória, política e ancestralidade. Entre as convidadas está Fernanda Kaingang, primeira diretora indígena do Museu dos Povos Indígenas, que aborda a proteção do patrimônio cultural e dos conhecimentos tradicionais, tema central de sua pesquisa acadêmica.
O podcast também recebe a cineasta e performer Olinda Tupinambá, que discute a relação entre corpo político, território e espiritualidade, além do papel da arte no enfrentamento ao racismo ambiental. A artista visual Yanaki Herrera, de origem quechua, reflete sobre maternidades dissidentes, redes de cuidado e o papel da arte na reconstrução da identidade indígena e da saúde mental.
As vozes charruas aparecem nas falas da ativista e professora Mônica Michelena e da artivista Oderiê, que revisitam a memória do genocídio de 1831 e a luta contra o mito da extinção, destacando o renascimento cultural do povo Charrua. Já a pensadora boliviana Elvira Espejo Ayca compartilha a filosofia da “Nutrição Mútua das Artes” e sua experiência à frente do Museu Nacional de Etnografia e Folclore da Bolívia, defendendo práticas curatoriais não extrativistas.
A série inclui ainda o artista patamona Isaías Miliano, que fala sobre o legado de Jaider Esbell e a produção artística em Roraima; a cineasta e liderança Sueli Maxakali, que apresenta o cinema como ferramenta de luta e memória; e os artistas Ian Wapichana e Ge Viana, que discutem retomada, crítica colonial e novas imagens para os povos indígenas.
Encerrando a temporada, o artista Joseca Yanomami compartilha como seus desenhos expressam a luta pela defesa da Terra Floresta e a relação espiritual entre criação artística, sonho e proteção do território.
Mais informações nas redes sociais do projeto: https://www.youtube.com/@nhexyro https://www.instagram.com/nhexyro/
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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