Mocidade batuca na avenida encontros, ancestralidade e vivências reais; veja a letra, ouça o samba-enredo. Um corredor turístico é feito de quê, além de ser rota para cartões-postais? De gente, memória, rios, ancestralidade, encontros e acolhimento, no caso do Porto Meira, mostra o samba-enredo da Escola de Samba Mocidade Unida do Porto Meira, que pisa […]
A composição “Encontro de dois rios com a força da ancestralidade” é dos carnavalescos e músicos Jaime André, o Pingo, e Spartaco Avelar. Ao demonstrar o carinho e enaltecer a importância dessa região, contam, contribuem para “desesconder” parte de Foz do Iguaçu geralmente deixada de fora pela história e narrativa oficiais.
Imagem em destaque: Jaime André, o Pingo, e Spartaco Avelar, os compositores do samba-enredo – foto: assessoria/divulgação
O enredo da escola neste carnaval resultou de muitas reuniões e conversas a fim de garantir, ao final, ser capaz de representar uma ideia coletiva do lugar. “É pensar o território, a cidade e sua gente a partir do que realmente existe, de suas vivências”, explica Pingo, que viveu boa parte de sua vida no Porto Meira.
A interação com a Argentina e o Paraguai é efetiva e vem de baixo, antes de a comunicação fronteiriça ostentar nome de obra. “O samba-enredo retrata o bairro e seu entorno, personagens e vivências que refletiram na construção da cidade a partir desse local que de fato é o marco da integração entre três países”, expõe Spartaco.
Para levar o samba-enredo à avenida, outro diferencial: das três vozes que interpretam a música, duas são mulheres. Bruna Nunes, Luana Costa e Raphael Francisco da Silva dão tom e forma à composição da Mocidade Unida do Porto Meira.
Na perspectiva de Spartaco Avelar, a região do Porto Meira cresceu e, ao mesmo tempo, foi encolhida entre o chamado corredor turístico iguaçuense, ainda mais com a construção da Ponte da Integração Brasil–Paraguai, nos últimos anos. Mas, opina, sua história é muito anterior, processo que promoveu trocas culturais e enriqueceu vivências.
“O bairro teve seu comércio pelas águas, por balsas no vai e vem do Rio Iguaçu todos os dias, transportando não só alimentos e objetos de consumo, mas também cultura entre os dois povos, Brasil e Argentina”, contextualiza. Essa riqueza não pode ser alvo de reducionismos, advoga.
“Pensar a região como uma simples rota de passagem e não dar a sua devida importância na construção da cidade é um erro e talvez até um apagamento da memória iguaçuense”, propõe Spartaco. “O bairro está tão próximo e integrado à área central do município que dificilmente alguém de fora, o turista, o reconheça como um bairro ‘periférico’, como chamam alguns.”
O samba-enredo destaca a ancestralidade ligada ao encontro dos rios Paraná e Iguaçu e a história do bairro Porto Meira, uma das regiões mais populosas do município. A Ala das Baianas tem como destaque a ialorixá Edna de Baru, e a comissão de frente homenageia o Pai João Carlos de Oxóssi, referência espiritual e cultural na região.
Fundada em 2000, a Mocidade Unida do Porto Meira tem como propósito fomentar a cultura popular e as atividades artístico-culturais no bairro. Depois da pandemia, a agremiação retomou as apresentações públicas em 2023 e 2024 e, em 2025, voltou a realizar desfile completo com samba-enredo autoral após 17 anos, reativando o carnaval de escola de samba em Foz do Iguaçu.
Sou Porto Meira: no encontro de dois rios a força da ancestralidade.
Do Porto Meira, a sua Mocidade vem batucar a sua ancestralidade abraçando na avenida afoxés, maracatus pra sacodir Foz do Iguaçu.
Eu sou, eu sou, eu sou, lugar de encontro união entre dois rios. Eu sou, eu sou, eu sou, de Foz um canto, uma reza, um abrigo. Meu Porto é lugar de história, de fé, de memória, de imigração, diáspora e povo de origem, tudo em sintonia e união.
No carnaval a gente vira batucada, furiosa e capoeira a gente ginga nessa festa esplendorosa. Vem os nossos batuqueiros e batuqueiras saudar toda a cidade e a todos abraçar.
No Carnaval a gente vira bateria furiosa, capoeira a gente ginga nesta festa esplendorosa vem os nossos batuqueiros e batuqueiras saudar toda a cidade e a todos abraçar.
Meu canto traz Boa Esperança, um Jardim das Flores, Golfinho a nadar, Morenitas, Arroio Ouro Verde, Dálias e Ametistas se pode encontrar. Essas matas, senhor, é Oxóssi que Pai João Carlos nos fez ensinar, seu terreiro de ancestralidade, nossa Mocidade a reverenciar.
Do comércio fluvial no escambo da ribeira, gente frutas e culturas fazendo nossa maneira. E vem chegando nas águas uma balsa rotineira, marco da integração das três fronteiras.
Ouça o samba ao Porto Meira, aqui
Conforme explica Pingo, o Porto Meira abriga uma longa história de povos originários, imigração e diáspora — uma região viva, opina, em que a comunidade é acolhedora e valoriza essa qualidade. Como exemplo simbólico, o encontro de dois rios, Iguaçu e Paraná.
“A Mocidade vem reverenciar essa convivência e a ancestralidade ligada a essa região, tentando estender esse espírito harmonioso a toda a cidade”, completa. “A escola tem uma história muito bonita com o bairro, é exemplo desse acolhimento, seja por sempre ser bem recebida por toda a comunidade, bem como por abraçar essa comunidade”, conclui Pingo.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
Assine as notícias da Guatá e receba atualizações diárias.