Reconstrução em Rio Bonito do Iguaçu evidencia o papel histórico da solidariedade no MST e mobiliza famílias de acampamentos e assentamentos de todo o Paraná. – Foto: Antonio Santos – MST/PR
Em menos de um mês após o tornado que atingiu o Paraná, a Brigada de Solidariedade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) alcançou, na quinta-feira (27), a marca de 100 casas reconstruídas, cobertas ou reformadas em Rio Bonito do Iguaçu. O município foi o mais afetado pelo fenômeno natural extremo registrado em 7 de novembro, que destruiu 90% das edificações, deixou seis mortos, 835 feridos, 1.060 desalojados e dezenas de desabrigados.
A 100ª restauração entregue foi em um espaço religioso, reinaugurado com oração. Mas o trabalho do MST começou ainda na noite da tragédia (7), quando militantes organizaram uma cozinha solidária em parceria com a prefeitura. Dois dias depois, em 9 de novembro, iniciaram-se os mutirões de limpeza e cobertura de casas em áreas da reforma agrária.
Mais de 400 famílias acampadas e assentadas tiveram prejuízos em casas, estruturas coletivas e áreas produtivas. O assentamento Nova Geração, em Guarapuava, registrou dezenas de desalojados e uma morte. Desde então, mais de 300 militantes de várias regiões do Paraná e de outros estados se revezam semanalmente na reconstrução. Os quatro primeiros dias foram dedicados às comunidades do próprio movimento; depois, parte das equipes passou também a atuar na zona urbana. A previsão é de seguir com os trabalhos até 20 de dezembro, quando haverá uma celebração de Natal com o município.
Militantes do MST reconstroem telhado destruído pelo tornado no Paraná – Foto: Thiarles França/ MST-PR
Para Bruna Zimpel, moradora do acampamento Terra Livre, em Clevelândia, e integrante da Direção Nacional do MST, a atuação intensa no Paraná expressa a própria identidade do movimento. Segundo ela, “o MST, desde a sua origem, foi pensado a partir de três objetivos: lutar pela terra, pela reforma agrária e pela transformação social”. Esses objetivos, afirma, só se sustentam porque o movimento se organiza a partir de princípios – entre eles a solidariedade.
“A solidariedade é um dos nossos princípios centrais, porque toda nossa luta é construída coletivamente, com a participação de todas as famílias”, afirma Bruna. Para ela, o que se vê hoje em Rio Bonito do Iguaçu não é algo excepcional, mas parte de uma prática histórica: “A solidariedade é permanente. Ela é vivenciada no cotidiano dos nossos territórios, nos acampamentos e assentamentos”, conta.
A dirigente destaca que o MST também já recebeu solidariedade de diferentes setores da sociedade brasileira e internacional, especialmente em momentos de perseguição política. Por isso, diz, o movimento mantém uma relação de reciprocidade com a classe trabalhadora: “Entendemos que a classe trabalhadora do mundo é uma só. Então, quando se faz necessário exercer a solidariedade de maneira firme e consistente, assim se faz”, afirma.
Na linha de frente da coordenação da equipe de Infraestrutura, Joabe Mendes de Oliveira, do acampamento Padre Roque Zimmermann, em Castro, relata que a atuação vai além do trabalho braçal: “A gente tem que chegar, conversar com a família, acolher, chorar junto. Ao mesmo tempo, é muito gratificante poder ajudar e reconstruir Rio Bonito”, relata o militante que está há semanas longe de casa.
Entre a população que recebeu apoio está Luciane de Fátima Moreira, que sobreviveu com o filho pequeno no único quarto que permaneceu inteiro. “O tornado destruiu tudo em segundos. Não tinha onde se esconder”, relembra. A brigada auxiliou na cobertura da casa e na limpeza do terreno. “A gente não tem palavras pra agradecer, o conforto que vocês [do movimento] estão dando. Já imaginaram se a gente não tivesse essa ajuda?”, conta a sobrevivente que vive em Rio Bonito do Iguaçu há 10 anos.
O acampado Celson Marins, do Pepe Mujica, em Reserva, chegou com cerca de 40 pessoas para apoiar a reconstrução de telhados. “Para mim é uma experiência que não tem o que falar, não tem palavras, porque ajudar o próximo é muito bom. E aqui aprendemos a dar valor à natureza, à vida e valor em tudo. A cidade que caiu toda, ficou tudo no chão, não escolheu classe, nem cor, nem posição. Então precisamos aprender a valorizar a vida, valorizar a natureza”, considera o camponês.
Um relato comum na região é que muitas pessoas atingidas, por ainda estarem em choque pela destruição das moradias, por ferimentos ou perda de parentes, não conseguem fazer a limpeza dos terrenos para retirada de entulhos. A militante Jucilene, do acampamento Valdair Roque, integrou a primeira equipe de limpeza de ruas e terrenos. “Só quem está aqui vê o tamanho da destruição”, afirma.
Na mesma noite da tragédia, militantes do MST montaram cozinha solidária para fornecer alimentação aos atingidos – Foto: Thiarles França/ MST-PR
A participação do voluntariado do movimento tem sido decisiva, segundo o capitão Julian Waldrigues, da Defesa Civil, responsável pela operação desde o início. Ele define a atuação do MST como “peça essencial” para remover detritos, reorganizar áreas e permitir o avanço das reformas. A expectativa é de que a reconstrução completa dure cerca de seis meses, com a necessidade de manter a articulação entre prefeitura, governo estadual e órgãos federais.
O prefeito de Rio Bonito do Iguaçu, Sezar Bovino, agradeceu publicamente os coletivos e movimentos que atuam na cidade. Ele mostrou, na sede da prefeitura, uma imagem aérea da cidade antes da catástrofe e afirmou que, em breve, outro quadro mostrará a cidade “mais bonita e planejada, reconstruída com as mãos de tantos voluntários”.
O processo de reconstrução conta com apoio do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA), que já realizou mais de 1.400 laudos na área urbana. Nas comunidades rurais, os laudos foram produzidos pela equipe técnica do projeto Semeando Gestão, ligado à Cooperativa Central da Reforma Agrária em parceria com a Itaipu, ao CREA e ao Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR). Mais de 400 laudos rurais já foram concluídos.
Em Rio Bonito do Iguaçi, 90% das edificações foram destruídas pelo tornado – Foto: Thiarles França/ MST-PR
Além da reconstrução física, o MST mantém uma ampla rede de apoio social. No assentamento 8 de Junho funciona uma cozinha solidária, organizada com o Coletivo Marmitas da Terra. Nos primeiros dias, foram produzidas cerca de 2.500 marmitas diárias; hoje são aproximadamente 600, reflexo da recuperação gradual das famílias.
No Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Dona Laura, a brigada ajudou na limpeza, reorganização e pequenos reparos. As atividades foram retomadas em 18 de novembro, com educadoras sem terra apoiando práticas pedagógicas e cuidado diário das crianças.
O Setor de Saúde do MST também atua no Espaço de Saúde Popular Luiza Aparecida, montado no centro comunitário da associação 8 de Junho, atendendo militantes e moradores.
Bruna Zimpel, da Direção Nacional do MST no Paraná, reforça a importância do apoio contínuo: “É necessário seguir o mês de dezembro com ações massivas, organizadas e cooperadas na reconstrução de Rio Bonito”.
Para garantir os revezamentos das equipes, o MST mantém uma campanha permanente de arrecadação para transporte e combustível.
Doações podem ser feitas para:
Associação Marmitas da Terra
CNPJ: 55.025.405/0001-76 Banco Crehnor Laranjeiras (350) Agência: 3001 Conta Corrente: 33506-1
Pix: marmitadesaude@gmail.com
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