8 de março: dia de luta da mulher mãe trabalhadora. Opinião de Dani Ovsiany Becker

Cartum de Serpil Kar, ilustradora turca. 2013
Sabemos que dentre as muitas barreiras que nós, mulheres trabalhadoras, enfrentamos na sociedade patriarcal, a educação dos filhos é uma delas, tanto no âmbito familiar quanto no escolar. Numa perspectiva feminista classista, a escola pública está muito aquém de atender essas necessidades básicas, pois reproduz e propaga as práticas machistas que enfrentamos diuturnamente, além de acentuar ainda mais a desigualdade entre as classes.
Pensando enquanto mãe trabalhadora e educadora da escola pública, esse abismo social torna-se ainda mais colossal com a implantação do Novo Ensino Médio. Arrisco dizer que regredimos ao modelo educacional que tínhamos à época da ditadura cívico militar no Brasil, que submetia os filhos da classe trabalhadora à uma educação meramente tecnicista, e pretendia “produzir” mão-de-obra barata para atender as demandas do mercado. A oportunidade de almejar um curso superior, ou formar-se cidadão crítico e atuante na sociedade, estava, e voltou a estar, a anos luz de distância do jovem periférico e trabalhador.
A LDB, em seu artigo 35 inciso III, garante que: “O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades: o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;”. Neste contexto, o congelamento dos gastos em educação; a falta de valorização e formação continuada dos docentes; o aumento por si só da carga horária de matemática e língua portuguesa sem a preocupação com a falta de estrutura nas escolas e a diminuição da carga horária de disciplinas como sociologia e filosofia, são pressupostos que estão na contramão da própria Lei de Diretrizes e Base da Educação. Ainda, a valorização da ideia das competências, assumindo a ideia do fazer apenas, em detrimento do pensar, vai de encontro ao processo de mercantilização da educação, anulando seu papel primordial na construção de uma sociedade justa e igualitária.
Uma pergunta que educadores preocupados com a transformação social devem se fazer cotidianamente:
“Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida? Por que não estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade? A ética de classe embutida neste descaso? Porque, dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferí-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmos.”(FREIRE, p.15, 1996).
Ou ainda:
“Que podem pensar alunos sérios de um professor que, há dois semestres, falava com quase ardor sobre a necessidade da luta pela autonomia das classes populares e hoje, dizendo que não mudou, faz o discurso pragmático contra os sonhos e pratica a transferência de saber do professor para o aluno?! Que dizer da professora que, de esquerda ontem, defendia a formação da classe trabalhadora e que, pragmática hoje, se satisfaz, curvada ao fatalismo neoliberal, com o puro treinamento do operário, insistindo, porém, que é progressista?” (FREIRE, p.16, 1996).
Diante da conjuntura que nos assola, do avanço do neoliberalismo na sua forma mais voraz rumo à conversão da educação em um objeto puramente mercadológico, usurpando-lhe seu papel transformador e revolucionário, posicionar-se e tomar partido é no mínimo íntegro e urgente.
Pensar na luta das mulheres trabalhadoras sem pensar na efetivação de uma educação pública universal, que seja feminista classista e, nas palavras do mestre Paulo Freire, libertadora, é fechar os olhos para parte primordial na construção de uma nova sociabilidade, rumo à liberdade absoluta das mulheres do mundo todo.
Que neste dia 8 de março, juntemo-nos à luta feminista por outra sociedade, através de uma educação que atenda as necessidades da classe trabalhadora!
À luta, todas e todos!
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