Por Aida Franco de Lima – Enquanto alguns meteorologistas alertam para a possibilidade de um novo e intenso El Niño em 2026, parte do poder público brasileiro continua agindo como a velha cigarra da fábula: canta, posa para fotos nas redes sociais, inaugura obras de impacto duvidoso e aposta na memória curta da população. Já […]
Por Aida Franco de Lima – Enquanto alguns meteorologistas alertam para a possibilidade de um novo e intenso El Niño em 2026, parte do poder público brasileiro continua agindo como a velha cigarra da fábula: canta, posa para fotos nas redes sociais, inaugura obras de impacto duvidoso e aposta na memória curta da população. Já a formiga — aquela que se prepara, planeja e trabalha para evitar tragédias — parece cada vez mais rara na política ambiental. O problema é que não dá para tapar o Sol com a peneira, não tem como fazer de conta que as mudanças climáticas são apenas discursos, não fatos.
Meteorologistas alertam para efeitos devastadores de Super El Ninho, no segundo semestre de 2026. Na imagem, detalhe de tornado ocorrido em Guarapuava em 2025. – Foto: Aida Franco de Lima
O meteorologista Piter Scheur tem chamado atenção para o superaquecimento do Oceano Pacífico equatorial. Ele diz que é um El Niño que vai chegar à categoria de Super-El Niño e que o auge será na primavera. Em vídeos postados em suas redes sociais, ele afirma que em sua carreira nunca viu um aquecimento tão anormal e intenso como está havendo. Conforme o meteorologista, este é o momento para alertar, mas alguns profissionais da área alegam que ainda é cedo para cravar a gravidade do que virá. Tornados, enchentes, deslizamentos de terra, quedas de barreiras.
“Comecem agora a fazer a limpeza de rios”, exemplifica. “Nunca vi um potencial energético desse. Vai ter tornados na região oeste da região sul do Brasil, vai ter enchentes, vai ter problemas associados a deslizamentos de terra, quedas de barreira. Estão esperando a ter um transtorno igual teve no Rio Grande do Sul de novo?”
De acordo com o profissional, pode ser pior do que aconteceu nos anos de 1983, 1997,1998, 2015, 2023 e 2024. As previsões indicam que os eventos climáticos irão começar no Rio Grande do Sul, depois Santa Catarina, Paraná e vão distribuindo-se com o auge na primavera.
A lembrança das enchentes históricas no Rio Grande do Sul ainda é recente demais para ser tratada como um acidente isolado. O planeta aquece, os oceanos acumulam energia, e os eventos extremos se tornam mais intensos. Ainda assim, seguimos agindo como se tudo fosse surpresa.
A população, por sua vez, também não está sendo suficientemente informada sobre o que precisa fazer. Fala-se muito sobre obras emergenciais depois das tragédias, porém pouco sobre prevenção cotidiana. Onde estão as campanhas permanentes ensinando famílias a montar planos de evacuação? Onde estão os alertas educativos sobre áreas de risco, descarte de lixo, drenagem urbana e armazenamento de água? Em muitas cidades, a Defesa Civil só aparece quando a água já entrou pela porta da frente. Falta comunicação ambiental clara, acessível e contínua.
Há ainda uma dimensão cruel nesse cenário: os mais pobres são sempre os primeiros atingidos. São eles que vivem próximo aos rios, em áreas vulneráveis ou sem infraestrutura adequada. Quando o clima entra em colapso, não existe igualdade social diante da enchente. Uns perdem móveis, outros perdem a vida. E enquanto comunidades inteiras tentam reconstruir suas casas, muitos gestores continuam presos ao ciclo político imediato, preocupados mais com a próxima eleição do que com o próximo evento climático extremo.
A velha fábula da formiga e da cigarra talvez nunca tenha sido tão atual. O Brasil precisa urgentemente decidir se continuará cantando enquanto o céu escurece ou se começará, finalmente, a preparar-se para um futuro climático cada vez mais instável. Sustentabilidade não pode ser slogan de campanha nem tema decorativo de conferência internacional. Sustentabilidade é planejamento, informação pública, prevenção e coragem política para agir antes da tragédia — e não somente depois dela.
Ah, sim, o último dia 5 foi Dia Mundial do Meio Ambiente, contudo nos outros 364 precisamos lembrar que o cuidado com a natureza é questão de sobrevivência de todas as espécies, principalmente da única que a destrói: a humana.
Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a opinião da Guatá.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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