Usando grafismos e artesanatos indígenas, a professora Midiã Barbosa ensina Geometria e Trigonometria para alunos do Colégio Estadual Indígena Teko Ñemoingo, localizado na Reserva Indígena Santa Rosa do Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, no Oeste. Professora de colégio estadual usa grafismos e artesanatos indígenas para ensinar Geometria e Trigonometria – Fotos: Arquivo pessoalClique aqui […]
Usando grafismos e artesanatos indígenas, a professora Midiã Barbosa ensina Geometria e Trigonometria para alunos do Colégio Estadual Indígena Teko Ñemoingo, localizado na Reserva Indígena Santa Rosa do Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, no Oeste.
Professora de colégio estadual usa grafismos e artesanatos indígenas para ensinar Geometria e Trigonometria – Fotos: Arquivo pessoal
Como dar vida, cor e significado à Matemática ensinada em sala de aula? Professora da rede estadual de educação, Midiã Barbosa encontrou a resposta na cultura Avá Guarani. Usando grafismos e artesanatos indígenas, a docente ensina Geometria e Trigonometria para alunos do Colégio Estadual Indígena Teko Ñemoingo, localizado na Reserva Indígena Santa Rosa do Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, no Oeste.
A metodologia ativa ajuda os estudantes a visualizarem conceitos que, antes, pareciam abstratos – ângulos, lados, seno e cosseno, por exemplo. Além disso, a iniciativa reforça a importância do reconhecimento e da valorização da cultura local pelos próprios alunos.
Dessa forma, segundo Midiã, o ensino de Matemática transcende a tradução literal para se tornar uma rica experiência de aproximação cultural com a realidade da aldeia. “A base da educação escolar indígena é a interculturalidade, ou seja, o ensino dos conteúdos escolares dialogando com os saberes da comunidade. O maior desafio para a interculturalidade é que, para colocá-la em prática, o professor precisa buscar conhecer a cultura indígena. Eu me interesso muito pela cultura Guarani, pois descendo desse povo e me orgulho disso”, explicou.
Midiã atua no colégio desde 2023 e, hoje, atende turmas do 7º ao 9º ano do Ensino Fundamental, além de manter um clube de ciências chamado Ñeha’ã Kuaase – termo em Guarani que significa “Mentes Curiosas” –, com aulas em contraturno.
A interculturalidade, citada pela docente, é parte fundamental da pedagogia aplicada nas escolas indígenas. Em ações como os dias de Estudo e Planejamento, equipe pedagógica e professores das instituições debatem metodologias e estratégias para utilizar a interculturalidade em sala de aula.
Segundo informações da Secretaria Estadual de Educação, que tais iniciativas fortalecem o sentido de pertencimento dos estudantes das escolas indígenas. O Paraná conta com 40 escolas indígenas, que atendem a mais de 5 mil estudantes de diferentes etnias.
As aulas que misturam matemática e cultura indígena abrangem conteúdos diversos. Ao lecionar sobre as propriedades do triângulo isósceles para estudantes do Ensino Fundamental, por exemplo, Midiã usa como exemplo os grafismos indígenas – padrões geométricos, linhas e formas ancestrais aplicados na pintura corporal dos próprios alunos, bem como em cerâmicas, cestarias e tecidos da comunidade.
A própria compreensão de que o triângulo isósceles possui “dois lados iguais” ocorre por meio dos termos nativos “mokõi” (dois), “yke” (lado) e “ojohegua” (igual), em Guarani.
“Os alunos gostam, porque torna a aula mais dialógica. Este tipo de prática contribui para a compreensão do conteúdo, pois oferece um objeto que faz parte da realidade do aluno. Para a cultura indígena, é importante que a escola respeite e não substitua os saberes que são da comunidade. O aluno precisa aprender os códigos da sociedade dominante, mas sem perder a sua identidade”, diz Midiã.
Já no Ensino Médio, a professora desenvolve um projeto voltado ao estudo do cossenômetro, objeto histórico usado para medir razões trigonométricas. Iniciada em 2024, a ação ocorre em parceria com docente e estudantes bolsistas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).
Com aulas em contraturno, a iniciativa busca unir o conhecimento científico do ciclo trigonométrico aos saberes tradicionais do artesanato Avá Guarani. Por meio do estudo do Ñandukyha – artefato de forma circular e padrões de nós complexos, conhecido como “filtro dos sonhos” –, docente e alunos investigam as relações entre a cultura material da aldeia e as funções trigonométricas, como seno, cosseno e tangente.
Um dos objetivos é mostrar aos alunos como os saberes tradicionais indígenas podem se associar a conhecimentos acadêmicos e científicos. “Esse tipo de aula contribui para facilitar a Matemática. É muito importante valorizar e reconhecer a importância da cultura indígena em sala de aula para não perdermos os nossos próprios saberes ancestrais em meio aos saberes dos não indígenas”, argumenta Marline Takua Ponhy Rivarola, 16 anos, estudante da 3ª série do Ensino Médio.
Por meio da pesquisa intercultural, professora e alunos do Colégio Estadual Indígena Teko Ñemoingo participaram da Feira de Inovação das Ciências e Engenharias (Ficiências) 2025, em Foz do Iguaçu. Além disso, foram convidadas a dar um curso no âmbito do projeto Meninas na Ciência, desenvolvido pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) de Palotina.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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