O galope do cavalo em que vai montado Riobaldo – o protagonista de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – inspirou o compositor e professor da USP Paulo Pereira a criar a música Sertão, que dá título ao seu novo álbum, lançado nas plataformas digitais em março passado. “Nessa canção eu tentei passar esse clima misterioso, […]
O galope do cavalo em que vai montado Riobaldo – o protagonista de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – inspirou o compositor e professor da USP Paulo Pereira a criar a música Sertão, que dá título ao seu novo álbum, lançado nas plataformas digitais em março passado. “Nessa canção eu tentei passar esse clima misterioso, mágico do sertão de Guimarães Rosa, que, como descrevem os críticos literários, é um lugar onde o tempo não passa”, afirma Pereira, que é docente aposentado da Escola Politécnica da USP. O álbum Sertão pode ser ouvido neste link. .
Capa do novo álbum de Paulo Pereira, que inclui canções que expressam a magia de “Grande Sertão: Veredas” – Foto: Divulgação
. No novo álbum, Paulo Pereira apresenta 13 composições próprias que misturam referências latinas de samba, salsa, jazz e música erudita. Com produção de Swami Jr. – ganhador de dois Grammy Latino como produtor –, as letras e melodias de Pereira ganham um tom místico na voz de intérpretes como Giana Viscardi, Mau Sant’anna, Pedro Laco, Renato Braz e Swami Jr.
Ao Jornal da USP, o compositor conta que a ideia inicial era musicar o sertão do Nordeste, mas, assim que evocou a palavra “sertão”, ele se lembrou do sertão mineiro e fantasioso de João Guimarães Rosa, palco das vivências de Riobaldo. Com influências de Chico Buarque, Tom Jobim e outros ícones da música brasileira, Paulo cria, em Sertão, uma identidade original com raízes essencialmente brasileiras.
Em Sertão, transparece a sensibilidade da obra de Guimarães Rosa e do personagem Riobaldo. Na faixa Tatarana – apelido de Riobaldo no livro –, o personagem assume a voz do narrador, na fase da vida em que se “aposenta” do bando e conta sua história para o interlocutor. Com frequência, ele menciona o redemoinho, que, em Grande Sertão, se diz que é onde mora o diabo.
O compositor e professor da USP Paulo Pereira – Foto: Nina Nassar
Para Pereira, Grande Sertão é uma história de amor que se forma como uma tragédia iminente, na qual só se admite o amor a partir da falta. “Até quando existe ódio no livro, esse ódio é simbólico. Porque numa guerra entre capangas, entre gangues, é quase como se você abstraísse o ódio. É como se o combate fosse parte da vida, como na natureza.” Tentando descrever o universo mágico de Guimarães Rosa, o compositor afirma: “Rosa cria todo um clima através até de palavras que não existem. Ele cria uma linguagem. É uma coisa espetacular demais”.
Nem todas as faixas do álbum se concentram na obra de Guimarães Rosa. Outras composições abrangem contextos e olhares diferentes sobre o tema sertanejo. Borborema, a primeira faixa, conta a história de um cantador, que Pereira viu, certa vez, numa praça diante de um lago, em Campina Grande, na Paraíba. O compositor afirma que essa canção é uma de suas favoritas do disco. Numa experimentação de gêneros, Três Marias é uma salsa guajira – um típico ritmo cubano –, composta sob influências do grupo cubano Buena Vista Social Club e do pianista Pepe Cisneros. Três Marias tem, também, uma simbologia pessoal para Pereira. “A inspiração dessa composição é o meu amor pela música. O narrador está contando que ele se apaixonou por três Marias, que podem ser três mulheres. Mas a música tem a harmonia, a melodia e o ritmo, cada uma, uma Maria.”
Paulo Pereira se formou no Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, e seguiu carreira acadêmica. Começou na música apenas após os 40 anos de idade, e agora se dedica quase totalmente a ela. Incentivado pelos pais, recebeu uma educação humanista e, motivado pela irmã, professora de português, sempre gostou de literatura e arte. O carinho especial por Guimarães Rosa veio desde a primeira leitura de Sagarana, mas, por conta da engenharia, não lhe sobrava muito tempo para cultivar esse lado.
Ele lembra: “Aos 40 anos, eu comecei a estudar música e pensei: ‘é isso mesmo’. Não larguei minha profissão, mas a música foi tomando um lugar cada vez maior na minha vida. Com 45 anos comecei a estudar sax. E comecei a compor com 60 anos. Quer dizer, minha carreira musical foi totalmente atípica.” Modestamente, Pereira se considera um “poeta ruim”, apesar de ter coberto páginas e páginas de cadernos com poemas. Ele enxerga uma diferença grande entre ser letrista e ser poeta. Sobre seu processo de criação, afirma: “Faço primeiro a música e depois a letra, porque a letra serve à música”.
Sertão é o segundo álbum de Paulo Pereira. Em 2023, ele lançou Quixote, que reúne 14 canções nos gêneros MPB, jazz e salsa, conforme anunciou o Jornal da USP na época (leia aqui).
Ouça no link abaixo a música Sertão, uma das 13 faixas do álbum Sertão, lançado pelo compositor e professor da USP Paulo Pereira.
Ouça, aqui.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
Assine as notícias da Guatá e receba atualizações diárias.