“O Céu dos Povos Originários”, livro digital gratuito, reúne a catalogação etnoastronômica do pesquisador guarani Germano Bruno Afonso e disponibiliza imagens para uso didático em escolas. – . –Clique aqui e receba notícias no seu WhatsApp Imagem em destaque, a Constelação do Cervo do Pantanal – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado […]
“O Céu dos Povos Originários”, livro digital gratuito, reúne a catalogação etnoastronômica do pesquisador guarani Germano Bruno Afonso e disponibiliza imagens para uso didático em escolas. –
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Imagem em destaque, a Constelação do Cervo do Pantanal – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
. O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP publicou o livro digital gratuito O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso. A obra, de autoria da graduanda em astronomia Gabriela Silva Salustiano e dos professores Laerte Sodré Jr. e Vera Jatenco Silva Pereira, atende a uma antiga demanda de educadores e editoras por ilustrações em alta resolução sobre a etnoastronomia brasileira, servindo simultaneamente como um registro do trabalho do professor Germano Bruno Afonso. Pesquisador guarani e um dos pioneiros nos estudos das interpretações celestes indígenas, Afonso foi professor de Física da Universidade Federal do Paraná. Morreu em 2021 aos 71 anos, vítima de covid-19.
Os mapas celestes de povos originários do Brasil, mais especificamente os povos Guarani, incluem tanto os agrupamentos estelares quanto as nuvens de poeira, manchas claras e regiões escuras da Via Láctea, funcionando como calendário. A publicação apresenta cinco grandes constelações sazonais, com imagens que sobrepõem os traçados indígenas às regiões do céu conhecidas pela astronomia ocidental. Cada uma funciona como um marcador preciso no calendário do ano.
“As constelações fazem parte dos ciclos da natureza e, no passado, entender os ciclos da natureza era extremamente necessário para a sobrevivência. Hoje, se a gente quer um milho, a gente vai no mercado e compra. Só que antigamente eles precisavam saber quando era a época certa de plantar, porque a sobrevivência deles dependia disso”, explica Gabriela.
Gabriela S. Salustiano – Foto: Arquivo de Mariana Gaia
A partir de fotografias digitais reais do espaço profundo, Gabriela utilizou o software Aladin Sky Atlas e as coordenadas do Stellarium para desenhar manualmente os traçados indígenas sobre as estrelas correspondentes conhecidas pela ciência ocidental, com base nos trabalhos de Germano Afonso.
“Ele já tinha feito isso, deixou escrito: – ‘Tal estrela representa o bico da Ema’.
E aí eu fui pegando cada estrelinha, fui arrumando para conseguir pegar todas dentro da imagem”, conta a estudante.
A Constelação da Ema (Guirá Nhandu, em guarani) aparece na segunda quinzena de junho e indica o início do inverno para os povos do sul do Brasil e da estação seca para os do norte. Sua plumagem é formada pelas manchas de poeira da Via Láctea. Segundo a mitologia guarani, o Cruzeiro do Sul segura a cabeça da Ema. Caso ela se solte, beberá toda a água da Terra, condenando a humanidade à sede. No céu ocidental, a figura sobrepõe-se às constelações de Scorpius, Centaurus, Crux, Lupus e Norma, entre outras. Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
A Constelação da Anta do Norte (Tapi’i, em guarani) aparece na segunda quinzena de setembro, marcando a transição entre o frio e o calor no sul e entre a seca e a chuva no norte. Seu contorno é definido de forma marcante pelas manchas claras e escuras da Via Láctea, razão pela qual a galáxia é chamada por esses povos de Caminho da Anta. No céu ocidental, corresponde à região de Cygnus, Lacerta, Andromeda, Cassiopeia e Cepheus. – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
A Constelação do Cervo do Pantanal surge no leste na segunda quinzena de março e indica a chegada do equinócio de outono. Para os Guarani, esse evento marca o início do Tempo Velho, período que se estende do começo do outono ao começo da primavera. A constelação está localizada na região que abrange Vela, Crux, Carina e Centaurus. – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
A Constelação do Homem Velho (Tuya, em guarani) surge no leste na segunda quinzena de dezembro, sinalizando o verão no sul e as chuvas no norte. Formada pelas regiões de Taurus e Orion, o desenho traz as Plêiades como um penacho amarrado à cabeça do ancião, e a estrela Betelgeuse marca o lugar onde sua perna foi cortada. O mito guarani conta que sua esposa o assassinou para ficar com o cunhado. Os deuses, tomados de compaixão, transformaram o homem em constelação. – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
Por fim, a Constelação do Colibri surge completamente no céu em setembro para anunciar o equinócio da primavera e o começo do Tempo Novo, que vai até o início do outono seguinte. Na cosmologia indígena, o beija-flor alimenta a divindade Nhanderu com o néctar das flores que desabrocham nessa estação. A constelação ocupa a mesma região celeste que Cygnus. – Foto: E-book O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso
O livro cumpre um papel pedagógico alinhado às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que exige a inclusão e valorização da cultura e dos saberes dos povos originários nas escolas brasileiras. Também apoia a implementação da Lei 11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena na educação básica brasileira.
Laerte Sodré Junior – Foto: IAG-USP
Para tornar as imagens mais nítidas e atender a editoras e educadores, os pesquisadores realizaram um mapeamento digital avançado. As imagens de fundo do livro utilizam dados do catálogo profissional Digitized Sky Survey 2 (DSS2 Color), gerado originalmente pelos observatórios Palomar e UK Schmidt, e distribuído pelo Space Telescope Science Institute (STScI).
Os pesquisadores do IAG desenvolveram o trabalho no âmbito do projeto Telescópios na Escola (TNE), que existe desde os anos 2000 e conta com a colaboração de diferentes instituições de pesquisa. “Nesse projeto, o objetivo é aumentar a cultura científica dos alunos das nossas escolas, principalmente das escolas públicas. A ideia é que os alunos façam observações do céu usando o telescópio, usando equipamento astronômico legal mesmo, e desenvolvam pequenos projetos. Nossa filosofia é que ciência se aprende fazendo ciência”, conta o professor Laerte Sodré Jr., que é coordenador geral do TNE.
Vera Jatenco Silva Pereira – Foto: Arquivo de Mariana Gaia
A professora Vera Jatenco explica que o material do novo e-book foi disponibilizado de forma aberta exatamente para dar total autonomia de uso e adaptação aos professores. “As editoras ou os professores solicitam autorização para a reprodução das imagens e é essa autorização que a gente fornece. São eles que editam, eles que fazem todo o trabalho, sempre dando crédito ao professor Germano e ao site do (projeto) Telescópios na Escola”, diz a docente.
Gabriela conclui relembrando os trabalhos de Germano Afonso: “Tem um vídeo dele sobre o medo de que daqui a duas gerações essa lembrança da astronomia indígena não fosse mais tão presente na sociedade, e eu acho que esse trabalho colabora [para preservá-la]”.
É possível baixar gratuitamente o livro O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso em PDF no site do IAG. O e-book também está disponível para download, com as imagens em arquivos separados, na seção de material didático do site do projeto Telescópios na Escola.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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