É tempo de Copa do Mundo, é tempo de futebol. E ao se falar do esporte mais popular do planeta, é primordial lembrar de figuras que edificaram o futebol moderno. Geralmente, o que vem primeiro à cabeça são os atacantes, aquele último toque de arte que se transforma no próprio gol. Também pensamos nos meio […]
É tempo de Copa do Mundo, é tempo de futebol. E ao se falar do esporte mais popular do planeta, é primordial lembrar de figuras que edificaram o futebol moderno. Geralmente, o que vem primeiro à cabeça são os atacantes, aquele último toque de arte que se transforma no próprio gol. Também pensamos nos meio campistas, cerebrais. Zagueiros e laterais, então, reconhecidas peças insubstituíveis para se ganhar um jogo, desde sempre.
Mas, e o goleiro? Que figura é esta, que coloca as mãos à obra no intento de impedir o ápice de um jogo em que se joga com os pés para aplicar a derrota no adversário? A resposta pode ser encontrada, por certo, na história daquele que é considerado o melhor do século XX: Yashin, o “Aranha Negra”. Goleiro russo que defendeu a União Soviética. Tão diferenciado que virou lenda e referência de um novo jeito de se jogar.
Lev Yashin emprestou sua história a filme, produção russa, em 2019. Direção: Vasiliy Chiginskiy. Roteiristas: Oleg Kapanets, Aleksandr Polozov e Vladimir Valutskiy. No elenco, Aleksandr Fokin, Yuliya Khlynina e Aleksey Guskov.
A história começa assim. Um garoto comum da classe trabalhadora soviética, como todos os seus colegas, jogava futebol dia e noite e sonhava em ser um atacante. Mas não importava em que time jogasse, na fábrica ou no exército, ele era inevitavelmente colocado na rede. Aí, é coisa de cinema.
Vale a pena assistir!
Acesse, aqui, para assistir também no Youtube.
A Copa do Mundo FIFA 2018, realizada na Rússia entre junho e julho daquele ano, trouxe em seu pôster uma figura lendária do futebol mundial, mas pouco conhecida pelas gerações mais jovens. Desenhada pelo artista Igor Gurovich, a arte tem a imagem de Lev Ivanovich Yashin, considerado o maior goleiro do século 20 e maior futebolista russo de todos os tempos.
O uniforme completamente na cor preta lhe rendeu o apelido de Aranha Negra | Crédito: Fotos na matéria: FIFA e reproduções da internet
O pôster é inspirado no estilo construtivista russo, corrente artística e estética do início do século 20, desenvolvida principalmente na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), nação que Yashin defendeu em quatro Copas. Mas quem foi Lev Yashin? O jornal Brasil de Fato apresenta para você.
A partir da década de 1950, com Yashin titular, o Dínamo conquistou mais 4 títulos da Liga Soviética (1955, 1957, 1959 e 1963), mas o clube disputava o posto de principal clube soviético contra o Spartak Moscou. Posteriormente, nos anos 1960, o Dínamo Moscou fica para trás, com o crescimento do ucraniano Dínamo de Kiev. Com Yashin, o clube de Moscou conquistou, além dos 4 títulos da liga, mais 3 Copas da URSS (1953, 1967 e 1970). Foram 22 anos defendendo as cores do Dínamo.
Após a aposentadoria de Yashin, o clube só levantou mais 2 títulos nacionais: os campeonatos soviéticos de 1963 e 1976. Com o fim da URSS, os maiores campeões nacionais eram o Dínamo Kiev (13 títulos), o Spartak Moscou (12 títulos), o Dínamo Moscou (11 títulos) e o CSKA Moscou (7 títulos). Mas desde o fim da URSS o Dínamo foi o único grande clube russo que ainda não foi campeão, enquanto o Spartak levantou mais 10 títulos e o CSKA mais 6. O Dínamo Kiev, que passou a jogar o campeonato ucraniano, conquistou mais 15 campeonatos nacionais.
O Campeonato Soviético de Futebol unia clubes das nações que compunham a URSS: no continente europeu a Rússia, parte da Bielorússia, Ucrânia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão; e na Ásia o Turcomenistão, Kazaquistão, Usbequistão, Kirguistão e Tajiquistão. Não é fácil ter tantos detalhes da carreira de Yashin, porque seu auge foi durante o período da Guerra Fria, em que o mundo estava dividido politicamente entre aliados dos Estados Unidos e aliados da URSS. E os vídeos do campeonato soviético não chegavam ao ocidente (por falta de interesse do ocidente ou por falta de abertura da URSS).
Após a aposentadoria do goleiro, o “Exército Vermelho” ainda viria a se destacar nas 3 Euros seguintes, com prata em 1972 e bronzes em 1976 e 1980. Nas Olimpíadas foram 3 bronzes consecutivos: 1972, 1976 e 1980). Nos Jogos de 1976, na disputa pelo bronze, a URSS bateu o Brasil do lateral-esquerdo Júnior. Os Soviéticos voltariam ao topo nas Olimpíadas de 1988, a última disputada enquanto URSS: medalha de ouro conquistada numa virada por 2×1 sobre o Brasil de Taffarel, Romário e Bebeto.
E foi devido uma atuação na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, que Yashin passou a ser conhecido no mundo ocidental. Na disputa das quartas de final diante de uma poderosa Áustria (bronze na Copa anterior), Lev fechou o gol e chegou a defender um pênalti sem dar rebote, garantindo a vitória por 2×0. Mas nas semifinais os donos da casa eliminaram a URSS por 2×0.
Na Copa de 1962, no Chile, Yashin falhou nos dois gols do Chile, pelas quartas de final, sendo o principal responsável pela derrota por 2×1 diante dos anfitriões. Nesta Copa o soviético também tomou aquele que é o único gol olímpico em Copas até hoje, anotado pelo colombiano Marcos Coll, no empate em 4×4 ainda na primeira fase.
O goleiro soviético voltaria a retomar sua reputação na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Após uma primeira fase perfeita, a URSS superou por 2×1 uma ameaçadora Hungria (que dias antes havia aplicado 3×1 sobre o Brasil de Garrincha, Tostão e Jairzinho). Com Yashin muito exigido, mas seguro, esta talvez tenha sido uma das melhores partidas do goleiro numa Copa do Mundo. Nas semifinais a URSS acabou derrotada por 2×1 pela Alemanha Ocidental de Franz Beckenbauer. Há ainda quem diga que nesta Copa de 1966, na disputa pelo 3º lugar, o mítico artilheiro português Eusébio teria se desculpado a Yashin após anotar um gol de pênalti na vitória por 2×1 de Portugal sobre a URSS (foto acima).
Na Copa do Mundo de 1970, no México, Yashin já aos 40 anos e no banco de reservas assistiu sua URSS cair novamente nas quartas de finais, desta vez diante do Uruguai: 1×0 na prorrogação. Após se aposentar do manto negro, Lev passou a integrar a Comissão Técnica da seleção. Mas o país passou 12 anos sem sequer se classificar para uma Copa.
Na terceira e decisiva rodada, o Brasil dominou a URSS, que não conseguiu conter a Canarinho e perdeu por 2×0, gols de Vavá aos 3 do 1º tempo e aos 32 do 2º tempo. Destaques ainda para Garrincha e Didi. Esta foi a primeira copa da dupla Pelé e Garrincha, que traria a primeira Copa do Mundo para o Brasil. Neste mundial a Canarinho anotou 5 gols contra a respeitada França e contra a anfitriã Suécia, de modo que os 2 gols sofridos por Yashin são considerados mérito do goleiro.
Em 1998 uma eleição realizada pela FIFA elegeu o soviético o melhor goleiro de todo o século 20. Em 2004 foi eleito o melhor futebolista russo da história. Por isso, afirma o jornalista e pesquisador Emanuel Leite Jr, “é impossível falar de futebol na União Soviética sem citar Yashin”. “É impossível falar de futebol na União Soviética e não citar Yashin. Qualquer livro ou artigo sobre a história do futebol no país traz muitas referências a Yashin, principalmente os que são do período em que ele atuou. Ele simboliza o futebol na URSS. O maior goleiro do Século 20”.
Ídolo do esporte nacional, o goleiro soviético era também filiado ao Partido Comunista da União Soviética. Sempre simpático, Yashin era tido como exemplo de carisma a ser seguido pelas lideranças do partido. Já em 1967, próximo ao fim de sua carreira, foi premiado com a Ordem de Lênin, maior condecoração concedida pela União Soviética. Entre 1930 e 1991 foram agraciados com a medalha os militares, civis e instituições consideradas heróis da URSS. O primeiro homem a ir ao espaço sideral, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin; e o revolucionário e presidente cubano Fidel Castro são exemplos de personalidades reconhecidas com a Ordem de Lênin.
Apesar disso, Yashin parece não ter se envolvido tão diretamente com a política de seu país. É o que acredita Emanuel Leite Jr. “Como ícone extremamente popular na URSS, ele tinha boas relações com dirigentes do Partido. Ele jogou a carreira no clube da KGB, a polícia secreta da URSS. O triundo no esporte era uma forma de mostrar o triunfo do sistema soviético. Então ele era muito utilizado como símbolo, exemplo a ser seguido pela sociedade. Mas não encontrei referências sobre seu grau de envolvimento direto com a política”, diz Emanuel.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
Assine as notícias da Guatá e receba atualizações diárias.