Guatá / Artigo de Julia Malanchen (*) – Aproximando-nos da data de 8 de março, instituída como o Dia Internacional da Mulher, impõe-se a necessidade de resgatar a compreensão histórica desta data, para além de seu caráter meramente comercial ou festivo proposto pelos interesses do capital. A gênese deste marco está intrinsecamente ligada às mobilizações operárias […]
Guatá / Artigo de Julia Malanchen (*) – Aproximando-nos da data de 8 de março, instituída como o Dia Internacional da Mulher, impõe-se a necessidade de resgatar a compreensão histórica desta data, para além de seu caráter meramente comercial ou festivo proposto pelos interesses do capital. A gênese deste marco está intrinsecamente ligada às mobilizações operárias do início do século XX, nas quais a reivindicação por condições de trabalho dignas e o sufrágio universal convergiram para a institucionalização de uma organização mundial de enfrentamento às desigualdades sociais e de luta pelos direitos das mulheres.
No atual contexto, embora se observem avanços significativos na estrutura jurídica e na ocupação de espaços de poder, a igualdade plena ainda enfrenta obstáculos estruturais. A persistência da diferença salarial e a divisão sexual do trabalho — que impõe às mulheres a sobrecarga das tarefas de cuidado e a chamada tripla jornada — atuam como barreiras invisíveis que limitam a progressão de carreira e a participação plena na esfera pública.
Em relação a segurança, ao analisarmos os indicadores anuais, observa-se um paradoxo alarmante e assustador: mesmo com o fortalecimento de alguns marcos legais, os índices de feminicídio e de violência doméstica apresentam um significativo aumento nas estatísticas. Este fenômeno revela uma reação do sistema que é capitalista e patriarcal. Conforme a autonomia feminina se consolida e os direitos de liberdade se expandem, a violência manifesta-se como um mecanismo de controle social e tentativa de restauração de uma ordem hierárquica ameaçada pela emancipação das mulheres.
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Em nossa análise, a garantia de segurança e a expansão de direitos, embora imprescindíveis, representam medidas de caráter paliativo se desvinculadas de uma transformação total da estrutura social. A superação da violência de gênero exige a construção de uma concepção de sociedade emancipadora, que rompa com a lógica da acumulação capitalista e com a concentração de poder centrada na hegemonia masculina.
É importante, por outro lado, manter uma vigilância crítica sobre a capacidade de absorção e interesses do sistema vigente. Observa-se que a sociedade capitalista opera uma cooptação do discurso de libertação feminina, transformando reivindicações históricas e políticas em nichos de mercado. Por meio de seus interesses por lucro e a intenção de desmontar a essência da luta, o capital converte a representação do 08 de março em um ativo comercial, promovendo o consumo de produtos, eventos e literaturas despolitizadas.
Essa ação resulta na distorção e esvaziamento da luta: o direito é substituído pelo acesso ao consumo, e a liberdade coletiva é reduzida ao empoderamento individual de caráter estético ou financeiro. Portanto, o feminismo que não questiona a estrutura de produção acaba servindo como ferramenta de marketing para o próprio sistema que o oprime, esvaziando a data de seu potencial revolucionário. Podemos afirmar desse modo que o feminismo desprovido de consciência de classe resulta em uma pauta esvaziada de sua força transformadora, uma vez que as opressões de gênero são indissociáveis das desigualdades socioeconômicas.
Para que a luta pelos direitos das mulheres não seja reduzida a uma distorção da liberdade sob a égide do consumo, é fundamental que o Feminismo Marxista se consolide como o eixo articulador da resistência. Este campo teórico-político rejeita a submissão aos objetivos do comércio e às estratégias de marketing do capital, reafirmando que a verdadeira emancipação é incompatível com a lógica do lucro. A luta coletiva deve, portanto, situar-se para além do capital, compreendendo que a libertação feminina é um projeto de ruptura com a exploração da força de trabalho e com a propriedade privada. Somente uma organização de classe, consciente e combativa, é capaz de impedir que a pauta histórica seja esvaziada e transformada em mercadoria.
Para finalizar, compreendemos que a luta coletiva deve confrontar o Estado patriarcal e burguês, compreendendo-os como estruturas que legitimam a desigualdade social. O horizonte final desta luta coletiva reside na construção de um novo modelo social: uma sociedade sem classes, onde a exploração da classe trabalhadora seja extinta e a violência sistêmica seja superada e não encontre mais solo fértil. Conclui-se, portanto, que a indissociabilidade entre gênero e classe é o único caminho para uma práxis transformadora.
. Como sintetiza o pensamento crítico inspirado no legado de Rosa Luxemburgo: “Quem é feminista e não é de esquerda, carece de estratégia; mas quem é de esquerda e não é feminista, carece de profundidade.” Essa máxima nos recorda que uma estratégia política que ignora a estrutura de classes é incapaz de atingir a raiz da opressão feminina, da mesma forma que um projeto de esquerda que negligencia o feminismo ignora a subjetividade e a dignidade de metade da classe trabalhadora.
O 8 de março reafirma-se, assim, como uma data política e não romântica, e muito menos como um dia de concessões, mas como um dia de convocação para a construção de um mundo socialmente igual e humanamente livre como defendia Rosa Luxemburgo e todos aqueles que tem como utopia um modelo social oposto ao que vivemos.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
CITRATTI, Silvia; GOMES, Mara. Trabalho e Gênero: a divisão sexual do trabalho na sociedade capitalista. São Paulo: Expressão Popular, 2018.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.
MORAES, Maria Lygia Quartim de. Marxismo e feminismo: para além da dicotomia público-privado. Campinas: Unicamp, 2010.
SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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