A ovelha negra Ele teria dito: ela manchou a honra de família! Mas era a honra dela que havia sido maculada há anos, na sua infância.Clique aqui e receba notícias no seu WhatsApp O que estou prestes a narrar poderia causar desconforto a muitas pessoas a quem eu amo. Peço perdão, mas me parece que […]
Ele teria dito: ela manchou a honra de família! Mas era a honra dela que havia sido maculada há anos, na sua infância.
O que estou prestes a narrar poderia causar desconforto a muitas pessoas a quem eu amo. Peço perdão, mas me parece que preciso fazer isso. Tenho me debatido como mosca na janela. Não encontro saída nesse labirinto de emoções e distúrbios que causam dores em todas as partes do meu corpo e perturbam minha mente, pensamentos enlouquecedores me dominam e me jogam contra as durezas de minha vida, eu sangro por dentro.
Eu quero falar, quero exorcizar o mal que carrego desde minha infância.
Eu me envergonho por saber que neste momento muitas crianças estão passando pelo que passei. Talvez até por situação muito pior do que a que vivi.
Felizmente minha mãe já se foi. Também meu pai partiu, com a honra que lhe era devida, segundo seus próprios padrões.
Tive uma vida miserável com alguns rasgos de beleza.
Muitas crianças, um pai lerdo e uma mãe muito inteligente, e esperta e captativa e alegre. Mas suas emoções eram defeituosas. Acho que herdei este defeito. Mas, o pior mesmo era ela não ser onipotente.
Ela corria da roça para o fogão e para a mina de água potável. Lavava as crianças, dava a comida, dava o peito e, dava o corpo, contra tudo em si, para o homem que nem dava conta do eito, mas passava a noite perturbando-a para ter sua de satisfação mesquinha.
As crianças na promiscuidade da miséria, ouviam as negações e queixas da mãe, os lamentos e insistências do pai. Se alguma criança falasse, emitisse algum som, a represália do pai era forte e ameaçadora.
E aquela mulher submetia-se a contragosto, talvez para evitar mais escândalos aos filhos. E como ela dizia, porque era obrigação da mulher no casamento. Dia seguinte já não cantava tanto, com um lenço na cabeça, balbuciava orações e suspirava.
As crianças juntavam gravetos, buscavam água, levavam a marmita para o pai, na roça. Ela ia lavar roupas no córrego.
Quando a ofensa arrefecia, voltava a trabalhar rápido e pesado, lavar roupa, fazer comida, arrumar o embornal e correr para a roça, aonde chegava cinco horas depois do marido e o ultrapassava na carreira do café. E voltava antes para casa, trazendo na cabeça um feixe de lenha e nos braços sacos de frutas e batatas. Descarregava tudo, lavava as mãos, tomava uma canecada de água. Rosto coberto de terra fina, assim também o colo e os peitos, passava um pano nos mamilos e os entregava ao menor esfomeado para ser sugada e se aliviar daquele peso. Enquanto isso ia mastigando uma casa de pão ou uma fruta, o que encontrasse a mão. Os outros filhos, a sua volta, chorando, reclamando, solicitando… Ela não poderia evitar, era impossível estar atenta a todos e a tudo sempre. Exausta, ela dormia.
O passado poderia ter ficado lá. Mas Maria Teresa envelheceu com as lembranças e sentimentos negativos sobre sua infância. E na adolescência, a menina desonrada, perdeu-se com vários homens, cobrindo seus pais de vergonha, tornou-se a ovelha negra da família. Ela também se sentia envergonhada de ser a mal falada e entristeceu de culpa e confusão.
Não superou nenhuma das experiências, carregando as dores pela vida e os sentimentos se tornando cada vez mais negativos e venenosos.
Casou-se e teve filhos e a vida deles foi afetada por seus transtornos. Tristeza depressiva, euforia, fúria. Era constante a alteração de humor, por um buraco na parede, um inseto, uma peça de roupa, qualquer motivo poderia desencadear uma crise violenta, com gritos e xingamentos.
Ao completar sessenta anos, sentia-se tão despreparada, frágil e raivosa para e com a vida quanto podia se lembrar de seus trinta anos. A diferença é que aos trinta anos tinha muito medo do fracasso e agora estava vivendo o fracasso, portanto não o temia, apenas o odiava. Trabalhou bastante, com dedicação desnecessária, estudou assuntos diversos aos seus gostos, conviveu com pessoas distantes de suas raízes, sobre as quais lançou véus e versos, na tentativa de transformá-los em um quadro de família.
A vida, no entanto, inquieta e irritante ferve e borbulha, transborda e acorda gritando…
Maria Tereza era agente administrativo em uma instituição do governo do estado. O que sugere que tinha um salário acima da média, mais tempo disponível que a maioria das mulheres e neuras suficientes para crer que fazer bem a alguém poderia curá-la. Ofereceu-se para trabalho voluntário e já sentia arrependimento.
A sala de espera estava cheia de mulheres, crianças e odores. Fez o que lhe orientaram, preencheu fichas, ouviu as desgraças e resumiu-as no papel. Felizmente tinha facilidade com a escrita. Depois de devidamente fichadas, aquelas pessoas podiam tomar um banho, receberiam roupas e alimentação. Estavam ansiosas por este momento. Mas a última pessoa que atendeu não tinha aparência de mulher.
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Ela tinha tantos dons, era mesmo uma mulher prendada. Costurava, bordava, sabia a arte do ponto cruz e do crochê, era primorosa, pontos minúsculos e firmes, desenhos bem arquitetados, como lhe ensinara sua mãe, Dona cotinha e sua tias, lá no sertão da Paraíba.
Para fugir do recrutamento para a guerra, Teodoro lançou mão da filha de doze anos e fugiu para o interior do mato. Levaram dias abrindo uma picada, enfrentando os espinhos, unhas de gato, caroás, laranjas bravas, espinhos mortíferos que lanhavam suas peles. Um dia chegaram a uma clareira. Fizeram fogo. Improvisaram um abrigo. Sua casa! Ali, ele estaria a salvo do exército. Não via futuro na guerra. Outros parentes e conhecidos se acercaram. Cotinha foi dada em casamento a Ariano. De um pai severo para um marido seco, a brutalidade era a tônica de sua vida. Ela, porém, tinha um espírito afável e uma presença delicada em seu mundo. Reuniu coragem para pedir ao pai, uma tirinha da terra que ela mesma ajudara a cultivar, já que a do marido era uma terra seca da bexiga. E os meninos nasciam sem se dar conta da dificuldade de manter a vida em seus corpos franzinos. Irado feito um deus poderoso, Teodoro brandiu o facão e os expulsou de lá e das redondezas, para os confins além do leste de seu reino.
Os exilados pararam às margens do rio. Naquelas várzeas encontraram inesperada fartura. Os dois meninos que restaram, cresceram, aprenderam a ler e escrever. Amelinha era miúda e delicada e seu irmão Leôncio a protegia e acarinhava.
Ariano há muito sumira. Soubera-se que andava lá para o lado de Goiás, trabalhando na mineração. A família acostumara-se com sua ausência. Difícil seria perder Dona Cotinha. Amelinha só fazia chorar, mas a inevitável hora chegou e ela se portou com muita dignidade, até cantou as excelências, ainda que escondida atrás da cortina. Com todas as necessárias velas, o corpo foi depositado na devida urna benzida. Em casa, o silêncio reinou até de madrugada, quando um rimbombar distante veio ganhando espaço e cobriu toda a cidade de Várzea Maior. O céu era todo riscado de relâmpagos ameaçadores e o vento uivava e dada nó na copa das árvores.
– Valham-me Deus e Nossa Senhora! Rezou Amelinha.
Leoncio seu irmão a confortou, depois da tempestade vem a bonança, dizem.
Choveu torrencialmente durante dez horas. O Rio teve uma das maiores cheias dos últimos anos. Semanas depois, quando as águas baixaram, Leôncio recolheu as batatas que eram plantadas na barranca do rio, durante a seca. Entre as belas batatas, ele encontrou um reluzente crânio. Levou-o para casa todo animado e causou terror em Amelinha.
– Ser ou não ser, Amelinha!
– Não ser, Leôncio! Não ser guardião de uma caveira. Enterre isso!
Algum tempo depois Amelinha se casou, veio morar em Foz do Iguaçu com seu marido operário. Leoncio foi morar em São Paulo, a vida fluiu, os assuntos entre eles mudaram. A lida com a terra vermelha na vila construída para os barrageiros, os diversos sotaques falados nos barracões estruturados para ser suas casas. Nascimentos, casamentos e mortes no enorme assentamento. Exigiu-se muito das mulheres para manterem em ordem tamanho contingente. Enquanto isso, a cidade se transformava, inúmeros estabelecimentos comerciais, hotéis, casas de câmbio, hospitais, escolas. Foi um boom de crescimento e desenvolvimento que trouxe também muita prostituição e descaminho e tráfico, para toda a região trinacional.
Um dia, Amelinha recebeu a triste notícia de que seu marido havia sido soterrado na barragem. Não havia como recuperar o corpo, estava definitivamente enterrado lá e era parte da estrutura que conteria o lago.
Leôncio e sua companheira compareceram ao ato fúnebre. Amelinha, cheia de dor, instou com o irmão, que por tudo que houvesse de mais sagrado, desse uma sepultura aquela cabeça solitária. Ele, mais uma vez, prometeu que o faria.
Tempos depois, ela soube que ao tentar cumprir a promessa, ele sofrera um ataque fulminante e tombara junto com a caveira, na cova para ela preparada e abençoada.
Apesar da enorme perda, Amelinha considerou que pelo menos o crânio continuava em boa companhia. Já ela, estava sozinha, sem família.
Juntou seus pertences e despediu-se dos vizinhos. Foi explorar o centro da cidade. Era jovem ainda e cheia de vontade de trabalhar e com muitos dons para praticar. Afastando-se do bairro barrageiro, trabalhou em hotéis e pousadas, conheceu os empresários importantes da cidade e conheceu também os vícios da vida noturna. Não era raro que socorresse vítimas de abuso de cafetões, policiais e iguais. Sentia imensa tristeza pela situação daquela gente. A Avenida Brasil era um palco de horrores. A aids assustou e inibiu, mas não extinguiu a função em que homens e mulheres se arriscavam em sua busca pelo que comer e beber e sentir. A fome era profunda, exigia sacrifícios de vida e de morte. Os dias, as pessoas, as vidas foram passando, muitas, para o além. Com sua aposentadoria chegou o medo daquilo que sempre a assustara, a hora derradeira. Estava só nesse mundo e queria deixar um legado.
Nunca correu para as margens do Rio Paraná. Preferia não saber sobre os cadáveres flutuantes. Decidiu fazer algo pela vida. Juntou esforços, angariou doações, convocou benfeitores, utilizou-se da rede de amizade que tecera ao longo de sua vida em Foz do Iguaçu. E sem grandes problemas conseguiu os recursos necessários para o seu empreendimento. Escolheu o bairro dos flamboyants numa rua sem saída; em que as arvores formavam um túnel. Era uma esquina, e o jardim ganhava um espaço privilegiado e gramado. A casa ampla, permitia vários ambientes e, até uma horta se fez nos fundos do quintal. Assim foi inaugurada a casa de apoio a mulher em situação de rua de Foz do Iguaçu. Não conseguiram uma sigla boa, porque houve conflito com outras iniciativas, então definiram que a casa seria um Ponto de Apoio à Mulher. E a triagem pelo atendente definiria o serviço a ser oferecido.
Era a jornalista recém-saída do escritório de advocacia, que usando saia lápis e scarpin, com uma blusa branca de seda e blazer preto foi cobrir pauta de tiroteio às margens do Rio Paraná, palco de conflitos entre muambeiros, traficantes, grupos rivais e policiais. Famílias em situação de vulnerabilidade, que ocupam faixas de terra pertencentes aos órgãos federais, ribeirinhos, pescadores, são reféns do tráfico de drogas e do descaminho. O despejo irregular de lixo e dejetos, nas margens do Rio, intensifica-se no trecho entre a Ponte da Amizade e o Marco das Fronteiras. O nível do Rio Paraná pode subir rapidamente nessa região, e essas cheias causam enchentes, concorrendo para tornar muito difícil a vida da população.
Como advogada, deveria ser uma facilitadora nos processos de divórcio, mas o coração romântico suplantou sua razão brilhante. Aquele casal não deveria se separar, para que tamanho desgaste! Ela havia largado sua carreira para viver aquele casamento e se tornara uma dependente econômica, financeira e afetiva. O que iria fazer depois do divórcio? E ele, depois da partilha, ficaria quase sem condições de prosseguir com seus negócios. Parem com isso, gente!
O advogado chefe, ao flagrar essa situação, afastou-a do casal. Noutra ocasião, ela resolveu ser mais proativa. E mais uma vez extrapolou suas funções. Dirigindo-se à mulher, disse que o divórcio é uma emancipação, em que a mulher deixa de ser um objeto, para se tornar sujeito de sua própria história. O divórcio é o momento de corrigir o malfeito e assumir o controle da própria existência. Entende? Tome sua vida nas mãos!
O marido não gostou da posição em que foi colocado, nem da imagem que vislumbrou de sua ex, emancipada. Dessa vez, Roberta foi cancelada. O contrato foi rescindido.
Roberta vem de uma linhagem de pioneiros de Foz do Iguaçu, cujos negócios abrangeram exportação, casas de câmbio, joalherias, hotelaria e outros. Não consta que os anos de chumbo tenham afetado sua família. Na época da abertura, Roberta era adolescente e pode viver sua rebeldia e manifestar-se ao seu gosto.
Formou-se na Faculdade de Jornalismo e em seguida em Direito. E ao mesmo tempo, engravidou. O pai da criança não mereceu fazer parte desse processo criativo, além da concepção. Talvez algum sussurro tenha sido ouvido: mãe é mãe, solo ou não. Não é mártir. É dona de sua vida e da sua autonomia!
Ela reuniu suas competências e capacidades para tornar-se uma mulher livre, ignorando as expectativas sociais de seu meio.
Um jornal local chamou-a para um freela. Ocorrera mais uma operação na barranca do Rio PR. O chefe de redação pediu uma matéria equânime, baseada em fatos e sem opiniões pessoais.
Ao chegar ao local indicado para coletar as informações para sua reportagem, Roberta ficou abismada com os monturos de lixo e o futum que subia das margens do rio. Poor River, pensou ela. Dois colegas e dois ribeirinhos iam com ela, relatando o horror que viveram poucas horas antes. Os tiros vinham de todo os lados e parecia que não havia onde pudessem se esconder. Nesse momento algo zuniu sobre eles. É tiro, é tiro!!! Correram desabalados para onde puderam, buscando a proteção ineficaz dos arbustos.
Roberta sentiu seu pé afundar numa geleia fétida. Já era o sapatinho. Os tiros pararam e aos poucos foram saindo do esconderijo. O recado fora dado. Para bom entender, meia dúzia de tiros bastam. Foram embora.
A matéria não agradou a redação. Ressaltou a situação miserável em que vivem os ribeirinhos, os constantes abusos sofridos por parte dos policiais e dos traficantes, destacou o lixo acumulado nas margens do Rio, enfim não disse o que teria que dizer… Defendendo-se a jornalista disse: levei tiro, pisei na merda… De scarpin, Roberta! E, faz diferença com que sapato se pisa.
Enfim, sua reportagem foi cancelada e seu não vínculo com aquele jornal, como jornalista de barranca, também.
Mas, já estava ela, produzindo matérias para revista queridinha da fronteira, que destacava os feitos de mulheres empreendedoras. A princípio achou que seria um bom espaço para seus pensamentos, logo, no entanto, se encheu daquela doutrinação toda, se cansou do caráter elitista da revista, para quem a realização feminina estava em criar, produzir, mostrar. Cansou!
Seu filho crescia, inteligente e altivo. Precisava aumentar sua segurança financeira, garantir colégio, plano de saúde. Um salário fixo seria muito útil. Chegara sua hora de capitular e fazer parte do sistema.
Roberta tem a pele branca, como uma porcelana. Cabelo grosso e preto, mantidos curtos, corte assimétrico, com um lado raspado. Os olhos escuros, pequenos e brilhantes. Sorriso franco e risada peculiar. Seu visual fazia pensarem em estética futurista, em moda na época. Mas, para ela tinha a praticidade de um rabo de cavalo.
Com esse senso prático, passou a compor o quadro de empregados da companhia de abastecimento. Sua missão agora era desdizer a mídia quando estivessem desagradando seu patrão, e reforçar a notícia quando fosse favorável a ele. Produzir matérias positivas e rebater as negativas externas. Proteger e promover seu patrão. Pensou que seria fácil, e seria, se fosse dócil, se fizesse sem pensar, se não ouvisse os ruídos da comunicação antissocial. E o Rio a chamava sempre: despejos no rio, odores em suas margens, milhões em investimentos, dezenas de obras, anjos batendo asas, que a mídia se recusava a ver.
Difícil, mas no dia certo ou até antes, o pagamento chegava. E a aposentadoria estava cada vez mais próxima.
Foi num desses chamados do Rio, que o corpo boiou, bem próximo da espuma poluidora. Flutuou sem pudores, acariciando as poucas plantas ciliares e ficou ali, aguardando Roberta, com sua máquina e com suas palavras para explicar o que sua empresa não tinha a ver com aquele cadáver.
Ela enfiou os dedos pequenos nos lindos cabelos curtos, agachando-se à beira rio, deu o rosto ao sol de verão deste Oeste sem Deus e, decidiu: vou aderir ao PDV! (plano de demissão voluntária)
Cabelos secos e espetados de sujeira, olhos escuros, olhar duro e desconfiado. As mãos esqueléticas, o ventre inchado sobre pernas esguias, os pés dilacerados, enegrecidos. Foi difícil compreender a fala, faltavam-lhe dentes e língua parecia entumecida. Estava só. Ninguém a conhecia. Sabiam que vivia na rua há tempos. Sinalizou pedindo água.
Seu nome, ninguém sabia com certeza. Já foi chamada de Paulão. Estava com fome, muita. Não sabia onde e quando nascera. Queria comer logo. 15 anos? Como assim, Paulão, interveio a supervisora, aqui é para mulheres?! A criatura, grunhiu, rosnou, tanto faz. Dra. Salete saiu do consultório:
– Deixa ela tomar logo um banho e comer, depois veremos. A supervisora assentiu sem concordar. Não era certo. Paulão rosnou, depois salivou, uma baba escura e viscosa escorreu nos cantos da boca.
Impossível contar as marcas que a rua deixou nesta menina esquisita. Um corpo quebrado, lanhado, vilipendiado e, preenchido por mais uma vida em risco.
Ela não fala, quando tenta, o que sai de sua garganta é um rosnado. No abrigo, optaram por chamá-la de Penélope depois que aprendeu a fazer tricô. Logo ganhou apelido de Pepe e ela pareceu aceitar. O banho e a higiene dos cabelos e unhas, não resultaram num quadro muito humanizado. O corpo encolhido, o olhar por baixo de grossas sobrancelhas faziam-na muito parecida com um cachorro. Após a alimentação, enrolou-se em si mesma num canto da sala. Uma atendente a cobriu com uma manta e, pesarosa, viu-a dormir um sono agitado cheio de espasmos.
Entre as mulheres sofridas que passaram por ali, aquela era a que causava mais inquietação à Amelinha. A desumanização de seus modos, o medo e a ameaça no olhar, as cicatrizes em todo o corpo, os pés inchados, cobertos de feridas. E a feição infantil! Nos olhos assustados e ameaçadores, era a luz infantil que a angustiava.
A médica a examinou e atestou a gravidez avançada. A menina estava anêmica, subnutrida e com infecção urinária. Prepararam-se para um parto prematuro que não demorou a ocorrer. Acordara no meio da noite, uivando de dor. No pronto socorro estava numa maca, aguardando por uma sala de parto. Num espasmo de dor jogou-se no chão, estrebuchando. Seu corpo expulsou o feto roxo, expeliu muito sangue e partes de suas entranhas.
Um enfermeiro a levou para o consultório, agora acalmada pelo alívio das dores. Ela não procurou pelo feto, não deu ares de quem soubesse do que se tratava. Ela dormiu profundamente.
O abrigo era temporário, não havia estrutura para a manutenção das mulheres ali. Logo Pepê teria que ir. Para onde? Nenhum parente procurara por ela. Ela não sabia falar…
Maria Teresa a levou para um passeio pelos arredores do abrigo. Crianças andavam de patins e bicicletas. Pepê se aproximou sorrindo e logo as crianças estavam interagindo com ela. Apesar da aparência e sua dificuldade em falar, as crianças a puxaram e brincaram com ela sem barreiras. Meu Deus, é realmente só uma criança! Ali Maria Teresa tomou uma decisão, iria cuidar dela pelo tempo que fosse possível. Não permitiria que aquela menina voltasse para a selva das ruas de Foz do Iguaçu.
Lembrou-se de que ainda tinha marido e filhos. E que prometera que não levaria ninguém para casa, em decorrência de seu voluntariado no Ponto de Apoio. Lembrou-se também que a sua sanidade mental dependia de fazer alguma coisa certa nessa vida.
Pepê precisava de cuidados. Ela precisava cuidar de Pepê. Quantas vezes ela fugiria? Voltaria grávida? Teria partos complicados, teria filhos? Roubaria? Seria agredida, chegaria suja, sangrando, drogada? Até quando, daria conta disso? Não daria. Com certeza não. Mas por agora, cuidaria dela enquanto pudesse.
Maria Teresa sofria as agruras da depressão há anos. Medicamentos, terapias e outras atividades não estavam resolvendo. Vivia de altos e baixos. Contra o conselho do Terapeuta inscrevera-se para o serviço voluntário naquela casa de apoio. Sua família fora contra. Eles a queriam disponível para a vida familiar. Em geral, ela chegava muito cansada, estressada e triste por tudo que vivenciava junto àquelas mulheres brutalizadas. Amelinha, em sua sapiência, orientava: dediquem-se, deem o seu melhor, depois respirem fundo e vão para suas casas, para os seus espaços, com a certeza de terem sido úteis para alguém, embora não tenham alterado a rota do mundo.
Mas, Maria Teresa ia e vinha arrastando as correntes, os grilhões estavam presos a si, irremediavelmente. E ela queria agregar Penélope.
Para tirar a menina daquela letargia em que ficou logo na chegada, Amelinha a incentivara a fazer tricô, explicando que seria uma manta para bebê. Rapidamente ela aprendeu. Dedicou-se por horas, numa febre laboral que encantou as cuidadoras. Porém, quando errava e era alertada, desmanchava tudo e recomeçava. Calma Penélope, seu Ulisses vai chegar! dizia Amelinha, brincando com o nome da tecelã grega.
Amelinha ensinava crochê, tricô e bordado enquanto contava histórias de sua terra e ouvia os relatos de vidas arriscadas na escuridão das realidades daquelas mulheres.
Dora fora mantida pelo pai abusador, numa cabana, no meio do mato, na região de Guarapuava, amarrada a uma cama de jirau. Ferira-se gravemente nas tentativos de fuga. Mesmo assim forçava-se a lutar, morder e dificultar as brutalidades que o pai desejava impingir-lhe. Estando mais bêbado que de costume, o monstro irritado ateou fogo na casa de taipa e saiu cantarolando. Ela foi resgatada por trilheiros, com setenta por cento do corpo queimado. Recebeu tratamento por dez meses no hospital. Foi o melhor tempo de sua vida. Depois Conselho Tutelar, Casa da boa criança… Com aquela aparência era motivo de chacota. Fumou maconha, achou muito bom. Dormiu na rua. Achou muito bom. Foi ficando, foi zanzando, foi dormindo. Acordou com uma dor forte na cabeça. Com paus e pedras dois espécimes de gente a atacaram. Levantou-se e caiu com mais um golpe. Gritou e lutou em vão. Pararam quando a luz de um carro se projetou sobre eles. Fugiram. Ela recebeu ajuda, foi para o hospital. Que céu! A alta no dia seguinte devolveu-a para a concretude de sua vida. E esse ponto é impossível, dona Amelinha!
Eleonor nascera e fora criada no bairro Morumbi, em Foz do Iguaçu. Pobreza e dificuldades sempre. Mocinha, trabalhou como manicure, babá e doméstica. Mas sentia-se atraída pelo transporte de mercadorias na Ponte da amizade. Conhecia muitas pessoas que viviam dessa atividade. A mãe desaconselhava pelos riscos, principalmente para uma jovem. No entanto, ela via fulana ganhando três vezes mais que ela e, sem problema algum. Foi, enturmou-se, fez-se mula por uma semana inteira. Recebeu e comemorou. Continuou suas idas e vindas pela ponte nada amistosa sobre o Rio Paraná.
Ela juntou dinheiro suficiente para erguer uma casinha nos fundos do lote de seus pais. Ali viveria com seu futuro marido. Um dia não foi bom. Estava em uma van que deveria seguir até São Miguel do Iguaçu. Na altura de Santa Terezinha, a perseguição começou. O motorista treinado empreendeu a fuga. Os ocupantes do veículo, em pânico, gritaram e rezaram. Muambeiros rezam muito. Apegam-se a santos poderosos como N. S. Aparecida. O veículo entrou numa estrada rural, buscando uma rota alternativa. O terreno acidentado não ajudava. Abandonaram a van com as mercadorias e fugiram a pé para o mato sob intenso tiroteio de balas de borracha. Eleanor foi atingida duas vezes. Os companheiros a esconderam em uma moita e continuaram a fuga. Encolhida, com dores terríveis e sem gemer, ficou ali ouvindo as imprecações dos policiais, mais disparos, depois a retirada do carro e da mercadoria. Era madrugada quando o movimento cessou. Ela sentia muita dor nas costas e no ventre, temia que o pior tivesse acontecido. Seu corpo parecia imenso, afundado no capim, não conseguia se mexer. Em algum momento perdeu a consciência. Já estava sendo resgatada, soro injetado na veia. “Tem muito sangue”, alguém dizia. Ela fechou os olhos.
Acordou vazia, seu útero fora danificado permanentemente.
Pepê ouvia e, às vezes, seus olhos emitiam um brilho de compreensão. Noutras, eles se turvavam assustadoramente, tingidos por um breu profundo.
Amelinha tinha sonhos. Acolher, tratar e ver as mulheres curadas saírem altivas e esperançosas de volta para uma família ou trabalho ou… Não foi assim. Há feridas que não se curam, esperanças que não se restabelecem, famílias indesejáveis ou inexistentes. E há o chamado do vício! Com muita dor, ela aprendeu que o momento presente era o mais importante. Acolher, limpar, medicar e alimentar. E acolher… Falava isso para suas companheiras voluntárias.
Roberta trouxera Maria Tereza, uma colega de trabalho. De cara Maria Tereza questionou essa liberdade. Afinal, elas recebiam orientação, seria de se esperar algum retorno. Esse retorno não acontece Maria Teresa, respondeu Amelinha. No entanto, um dia a mais sendo tratada como gente é um grande resultado. Se o efeito desse bem conseguir amenizar a dor.
Maria Teresa trabalhava com metas, indicadores e resultados. Sentiu que aquele voluntariado iria lhe custar mais do que pretendia doar.
Roberta já fazia parte do grupo de ajuda há algum tempo e disse que isto a salvava de mergulhar na depressão. Contava sobre o aconselhamento de Amelinha, a quem conhecia há muito tempo. No abrigo ensinava fotografia e redação. E ajudava a cortar unhas, pentear, dobrar roupas… Participava do que pudesse.
Maria Teresa era depressiva, desde que se lembrava. Explosões de humor que a fazia odiada pelos colegas, temida pelos filhos e ignorada pelo marido. O terapeuta receava que seu envolvimento com esse trabalho social pudesse piorar seu estado de saúde. Bem, ela iria apoiar-se nesse Ponto de Apoio.
Aí chegou a menina-cachorro e ela viu uma chance de redenção. Queria se livrar da mancha que havia em sua alma.
Fora tocada por seu pai, na infância. Fora acusada de sujar o nome da família, quando se excedera na adolescência. Mas o que a matava era a vergonha, a raiva, os ciúmes, o prazer que sentira nos toques de seu pai. Em seus relacionamentos buscou a mesma sensação. A imobilidade do sono fingido, à espera das carícias suaves, em pontos sensíveis, a remoção da roupa com extremo cuidado, os beijos. Nenhum gesto agressivo, nenhuma palavra, respiração contida, sem pressa. Essa foi sua fantasia por toda sua vida. Essa era a culpa que a matava a cada dia. Olhar para seus filhos evocava as lembranças, não poderia protegê-los, não era digna deles. Rezava, confessava, comungava, implorava proteção dos santos…
Penélope não demorou a refugiar-se entre os moradores de rua. Objetos de algum valor desapareceram enquanto ela aparecia alterada e suja. Ficava dias sumida. No começo Maria Teresa ia em seu encalço. Uma vez a encontrou e para seu desgosto foi tratada com frieza e desagrado. Parou de ir atrás. Aguardava em nervos e quando ela chegava, fingia indiferença. Penélope se higienizava, pegava a escova e sentava-se aos pés de Maria Teresa esperando que ela lhe penteasse os cabelos. Essa estratégia manipuladora, punha um pouco de alívio no coração de ambas.
Dessa vez, porém, a ausência fora maior. Chamada ao abrigo recebera a notícia sobre um óbito na boca de fumo, após uma batida policial. A mulher tinha um cartão do ponto de apoio. Maria Teresa foi reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal. Sua tristeza irritou sua família.
O divórcio aconteceu como era esperado. Uma jovem bonita e inteligente faria a felicidade do seu ex-marido. Ele merecia. Adolescentes, seus filhos a culparam pela ausência do pai. As dificuldades se tornaram transtornos, que se transformaram em cigarros, bebidas, maconha, tatuagens e noites fora de casa. Overdose. O menino foi levado para uma clínica de desintoxicação e depois iria morar com o pai. Veja se cuida pelo menos de sua filha! Maria Teresa o ouviu dizer. Ela tentou.
A menina fugiu e foi presa na Ponte da Amizade, por tráfico internacional de droga. Menor, foi levada à instituição devida. Em um mês foi esmagada. Parecia um cadáver se arrastando. Estava pele e osso. Costelas quebradas e muitos hematomas. O olhar perdido, calada.
A dor de Maria Teresa fê-la curvar-se. Aninhou a filha em seus braços, deitou-se com ela e teria ficado assim não tivesse que responder aos processos e ganhar dinheiro para pagar por eles. A tosse da filha aumentou. O médico diagnosticou pneumonia dupla. Os cuidados foram intensificados, mas a febre judiava do corpo enfraquecido. “Fala comigo, minha filha.” Um longo olhar foi a resposta.
O calor estava aquela coisa medonha que os iguaçuenses suportam há anos. Tudo abafado. Quando o sol se pôs, começou uma ventania, o céu escureceu no lado argentino e à medida que a noite chegava, o vento soprava mais forte. Pelas ruas, objetos, folhas, capins e muita terra era soprada de um lado para o outro, em rodamoinhos.
Por volta da meia noite a tempestade desabou ruidosa e carregada de eletricidade, relâmpagos e trovões. A menina dormia agitadamente, balbuciando alguma coisa. Maria Teresa estava tão cansada! Deixou de se preocupar com trovões e adormeceu. Não percebeu quando a tempestade passou. Não percebeu quando sua filha se levantou, abriu a porta, saiu para o quintal, abriu o portão…
– Ahhhh, minha filha! Gritou! Gritou!
O corpo inerte de seu bebê estava emborcado numa poça de enxurrada.
Que merda é essa aqui? Por que essa menina está morta? Que mundo é este? Em que besteiras eu acreditei até hoje? Tudo é violência, dor e morte? Que inferno!
Ela rejeitou quaisquer condolências pela perda da filha. Expulsou padre, pastor et caterva. Enterrou sua criança em silencio e com muito ódio. Tinha os olhos injetados e leve tom de roxo nos lábios finos, a voz tremia um pouco.
As mulheres estavam em atividades diversas ao redor de Amelinha, quando ela entrou abruptamente.
— Ainda nesta besteira, minha gente? Onde vão chegar com isso? Tomou os trabalhos manuais e os jogou pelo chão, assustando a todas. Foi para cozinha e quebrou pratos e copos, demonstrando sentir satisfação nesse ato. Derrubou cadeiras, quebrou a vidraça e sorria. O segurança tentou acalmá-la, mas ela ficou mais alterada e brava, dizia impropérios, todo tipo de palavrão. Apanhou uma faca e cortou-se profundamente. Jorrando sangue e ameaçando quem tentasse se aproximar, ela saiu para a rua. Avisada a patrulha policial chegou e iniciou a busca. Ela corria deixando um rastro vermelho.
Sempre correndo atravessou a V. Yolanda, regando as ruas com seu sangue. Na Av. das Cataratas, ela teve um insight. Impetuosamente se jogou no vazio. O ônibus de turismo ocupava esse vazio e colidiu com ela, imprensou-a e a arrastou até que uma massa escura aquietou-se no asfalto.
O coração de Amelinha não aguentou e parou, mandando-a para junto dos seus.
O sonho de Amelinha morria com ela. Roberta tentou defender o Ponto de Apoio das ações que choveram de todas as partes interessadas, do juizado de menores, médicos, policiais, vereadores e deputados, vizinhança. Cada um representava um processo mais robusto que outro e se conectavam, tinham motivos, razões pelas quais aquela casa não deveria ter existido.
Ela costumava dizer que girava com o mundo, mas considerou este um giro muito vertiginoso. Estava em desvantagem e sem apoio de amigos. Instada a desistir do que parecia ser um caso perdido.
Com a chegada do inverno, o pôr do sol fica ainda mais bonito visto das margens do Rio Paraná. Ela calçou botas de cano médio, retirou um cachecol do baú. Apossou-se de uma garrafa de vinho tinto argentino e sentou-se no deque à beira do rio. Forçou sua mente a lembrar de cada mulher que havia passado pelo Ponto de Apoio, nos últimos meses. As lágrimas escorreram por seu rosto bonito. Assoou-se. O Rio estava brilhando em dourado e vermelho. Lá embaixo, algo se movimentava na margem e Roberta prendeu a respiração, enquanto apurava as vistas. Era um jacaré de papo amarelo que deslizou magistralmente para a água. Apoiando-se no guarda-corpo, ela se aprumou, ergueu a taça: Santé, Mulheres!
Era uma festa improvisada. Nenhuma decoração, estrutura mínima, comes e bebes mal distribuídos em bandejas, travessas de inox e baldes de gelo aqui e ali. Cadeiras, poltronas, pufes, mesas espalhadas nos fundos da casa, com um gramado ressequido e uma churrasqueira decadente. Num canto, o som tocando MPB e músicas dos anos 80 e 90. As falas altas, as latas de cerveja sendo abertas e o bater dos talheres completavam a algazarra. Algumas crianças corriam por ali, ignoradas pelos adultos imersos em suas próprias piadas e risadas. A anfitriã fingia estar no controle, mas eram nítidos os seus vacilos, os pés pesados eram arrastados, o sorriso fixo no rosto tenso, os ombros curvados. Daphne passava por ela e a endireitava: está tudo certo. Relaxe! Marisa, no entanto, não achava nada certo. Estava tudo errado a sua volta.
Renato, o administrador financeiro, era o marido de sua melhor amiga. Elas foram vizinhas e parceiras, ajudaram-se com os filhos, passearam, riram e choraram e se divertiram muito. Kássia era uma mulher exuberante com rosto, pele e dentes perfeitos. Os cabelos escuros, brilhantes e fortes iluminavam ainda mais a pele imaculada. Suas mãos com unhas impecáveis moviam-se com a graça das odaliscas, assim como sua cintura bem-marcada. Os pés eram como pães prontos para o forno, mimosos, fofos. Mas era o olhar que a todos cativava, intenso, brilhante, febril. Ela e o marido conheceram-se de forma peculiar. Estando já em dificuldades financeiras, ela herdou uma casa, cujo financiamento não havia sido honrado e os juros absurdos ameaçavam comer o que restava do imóvel. Com a tenacidade que a caracteriza, Kássia assumiu a missão de negociar e regularizar a situação de sua casa. Num tempo em que mensagens trocadas por sms, ela entrou em contato com a financiadora e o cobrador responsável pelo contrato era Renato. Em pouco tempo, seduziram-se por torpedos. Ele vivia na capital, ela aqui. Ela voou para lá. Dias depois, ele voou para cá. Casaram-se. Ele se propôs acertar todos os ponteiros daquele incansável e precioso relógio. E o fez.
As amigas, admiradas e invejosas desse prodígio o atribuíram ao momento mágico quando brindaram na Argentina. Certa vez, Marisa, Kássia e Edith saíram para beber uma gelada na Barraca da Míriam, ponto turístico que fica na Feirinha de Porto Iguaçu, na Argentina. Borrachas, riam como se a vida fosse o que é, uma comédia. O assunto era o gosto de kássia por homens mais velhos e feios, sendo ela jovem e linda. Marisa dizia que ela, tanto quanto Edith, tinham a síndrome da bengala. Em sua defesa, kássia proferiu que queria alguém que a aceitasse, com tudo que era e com seus filhos. Um homem bonito, trabalhador, honesto, que me ame e queira uma grande família. Entendendo a gravidade e a impossibilidade desse desejo, as amigas propuseram um brinde: arriba, abaixo, ao centro, adentro! Riram, riram e estavam plenas e unidas.
Quando Renato surgiu, exprimindo seus pensamentos com desenvoltura e ainda, cantando e dançando e demonstrando paixão e respeito por Kássia, elas tiveram certeza de que o sortilégio havia se cumprido.
Fernando é o novo marido de Neiva. É advogado e ocupa um cargo importante no cenário político de Foz do Iguaçu. É um homem calado, de olhar doce que bebe muito e quieto. Renato fala alto, gosta de exprimir seus pensamentos, também canta, dança e exibe sua beleza e charme.
Neiva agarra o braço de Marisa e a obriga a sentar-se ao seu lado, exigindo saber tudo e logo. Desanimada, meio tonta, Marisa tenta ouvir o que falam os circunstantes, todos ao mesmo tempo. Empurram-lhe uma taça. ¨Não quero! ¨ ¨Beba! ¨ Ela leva o copo aos lábios, sem tragar.
Marisa e Neiva conheceram-se em 1995, quando faltava pouco para o fim do mundo, que não ocorreu, afinal. A jornalista era uma mulher assustadora, sem travas na língua. Extremamente inteligente e bonita. Tinha os cabelos castanhos, olhos muito escuros, usava lentes grossas e armações pretas. Ou as lentes de Marisa é que eram muito finas. É possível. Neiva jamais usaria lentes grossas. Armações até de ferro se estivessem em voga. Marisa nunca soubera se a amizade entre elas tinha a mesma gradação. Alguém consegue saber? Compartilharam momentos de crise e apoiaram-se algumas vezes. Quando em lados opostos, viraram-se as costas, mas quando uma onda as jogou frente a frente, se abraçaram. Marisa a amava e admirava. Temia e invejava sua língua viperina. Levantou-se com decisão e falar com os convivas da próxima mesa.
Edite a observava impassível, ao lado de seu marido indigesto, com idade para ser seu pai. Ela, um ser transparente, de pele macia, mãos pequeninas, peitos fartos e boca carnuda. Olhos cor de mel. Exprimia-se sempre com clareza e objetividade pedagógicas. Nunca se ouviu Edith brincar som sotaques ou palavras chulas. Tinha uma letra linda. Dormindo era um anjo. A anfitriã beijou-lhe a cabeça, ofereceu mais drinks e comida e sem ouvir a resposta, virou-se para Raul que a puxava. Ele e a bela Beatriz estavam com Edith e o velho. Marisa achou muito estranho porque as mulheres se detestavam. Os homens não ligavam se estivessem bebendo podiam discutir o diâmetro do cascalho e se divertir. Raul, intenso e afoito, elogiou a reunião, os petiscos e já estava ansioso pela próxima. Beatriz parecia uma escultura de alabastro, sentada, ereta, um sorriso largo esculpido no rosto liso de ângulos adoráveis, pairava além e acima daquela balbúrdia. Sua taça era servida sem atraso e tudo lhe parecia em paz. A paz era problemática, como uma tesoura que não sendo competentemente afiada ousasse cortar o tecido fino e o mastigasse, incontrolável. Assim se sentia a dona da casa ao ouvir a gargalhada incômoda. Estava sofrendo de demência, sabia, e de tantos outros males. Habituara-se a depressão. As amigas riam. Todos temos um grau de loucura. Vamos beber! Tudo virava piada quando misturado com álcool. O diagnóstico detalhado do psiquiatra demonstrou-lhe que ela estragara a possível vida das filhas com suas manias, hipomanias e surtos. A ira estava se acumulando em si, de um jeito insuportável. Sentia-se prestes a explodir. Sua mãe lhe dissera: eu pensei que você seria uma princesa… e você anda por aí no motel com e esse homem? Só lhe ocorreu dizer: não foi num motel! Lembranças invasoras, pensamentos intrusivos, sonhos perturbadores… Passou as mãos pelos cabelos grisalhos e se aproximou de Roberta.
Engrolando as palavras, sem desistir de seu ponto de vista, divertia-se, apesar de parecer muito alterada. Carinha de menina, trazia os cabelos fartos num corte moderno e sóbrio, como sempre. Roberta amadurecera forçosamente. Na rebeldia da adolescência, cabeça raspada e preenchida com ideias revolucionárias, um romance a machucou, emprenhou e a deixou para ser mãe solo. Tinha inquietação por respostas que buscou no direito, como advogada seria muito útil para os negócios da família. Não gostou da experiência, voltou para a universidade e concluiu o curso de jornalismo. Mas era como advogada que trabalhava bastante, no entanto gostava mesmo era de beber com os amigos, debater e rir sem frescuras. Quem a via não sabia as dores que a vida lhe impusera e a sede de justiça que lhe afligia o peito. Marisa sabia algo sobre isso. Ela se afastou um pouco e sentou-se obtendo uma visão de todo grupo. Neiva falava aos gritos e ria sem parar, o marido tentava contê-la, kássia e seu par dançavam. Edith arranhava o rosto, numa procura infindável por um cravo inexistente. O Velho indigesto garganteava para Raul que o estimulava com exclamações e perguntas, como se ouvisse um mestre. Beatriz, impassível, bebia. Roberta retirava mais uma garrafa de vinho de sua bolsa térmica e compartilhava com os parceiros de sua mesa. Era costume que cada um levasse sua bebida, enquanto a dona da casa oferecia a comida.
Neiva veio sentar-se com ela ansiosa para contar sobre seu último caso. Dormira com o melhor amigo do marido. Não por paixão era apenas curiosidade, porque Renato enchia a boca para elogiar a macheza do cara, e dizia que a mulher dele devia estar muito satisfeita, fazendo crer que ele fosse muito bom de cama. Mas não era nada. O que era tudo mesmo era seu menino. tão fofo! Olhava para ela como se ela fosse uma deusa! Marisa ouviu silenciosa e sorridente e pensou em tantas outras vezes que a amiga se envolvera por curiosidade. Fora assim com o namorado da irmã, e com o de sua melhor amiga, em sua juventude. Com o marido da chefe, o namorado da própria filha, e agora, estava seduzindo também o enteado. Ao longo dos anos em que se conheciam, muitas vezes, Marisa invejou a forma como ela pegava o que e quem quisesse, abandonando o objeto quando bem entendia para partir para outra sedução. E algumas sobras Marisa pegou.
Fernando era uma besta, cheio de si e de preconceitos. Abandonara Maria Teresa, quando ela mais precisava de apoio. Vivia em função de seus negócios escusos, utilizando mão de obra infantil em seus movimentos de importação e exportação. Suas fraudes lhe rendiam dinheiro suficiente para manter autoridades em sua folha de pagamento. Sua própria filha fora vítima de suas atividades, na tentativa de chamar sua atenção. Ele a ignorou. O filho, fraco e vulnerável, posto sob sua guarda, agora era objeto de desejo de Neiva.
Beatriz veio juntar-se a elas, querendo saber as fofocas. E contou sobre a última viagem, o quanto fora interessante e bons vinhos que provaram. Mas Raul, com esses compromissos teve que interromper as férias e vir atender seus clientes. Raul era contador e sabia das atividades ilícitas de muitos respeitáveis da cidade e trabalhava para mascarar as informações. Por ocasião do encerramento das atividades da Casa de Apoio, fora tenaz em apresentar motivos contábeis para o fechamento, agindo em prol dos interesses de seus clientes. Um desses, era o velho, marido de Edith, que vivia dos frutos do descaminho e do contrabando. Quando jovem fora piloto de um bimotor e cruzou o estado com valiosas cargas, destinadas a altas autoridades. Ao se aposentar, possuía diversas propriedades pela cidade e no Paraguay. Uma delas avizinhava com o extinto Ponto de Apoio a Mulher em situação de vulnerabilidade. Ele não queria que seu imóvel desvalorizasse…
Kássia e marido se levantam para ir embora e se despedem. Marisa os ama também, teme que eles se enxerguem e se afastem. Deseja que fiquem juntos para sempre, como um casal que se ama e se respeita, apesar da verdade sobre ambos. Edith resolve pegar uma carona com o casal e seus filhos. O Velho quer terminar a conversa e a bebida.
Roberta e seu grupo se movimentam para sair. Ela retira a última garrafa de sua bolsa e a coloca sobre a mesa. Beija Marisa e trôpega se despede dos restantes, encaminhando-se para a saída, junto com seus convivas.
O grupo restante ainda estava muito animado. Agora abriam a garrafa da Roberta, a saideira. Enchem suas taças e brindam.
– Saúde!
Saúde era o que nunca mais teriam!
Depois disso se despediram e se foram. Marisa recolheu e lavou a louça. Juntou o lixo, organizou as mesas e assentos. Depois tomou banho, tomou as pílulas e se deitou.
No dia seguinte, Daphne a encontrou gelada e rija.
Mais tarde soube dos acidentes ocorridos próximos de sua casa. Um carro se desgovernara e caíra no Rio Boicy. Com horror viu que se tratava dos amigos de sua mãe: Raul e Beatriz. Os corpos sem vida foram retirados por um guincho.
Outro acidente envolvendo proeminentes figuras da cidade ocorrera na Avenida Paraná esquina com av. Jorge Shimmelpfeng. As vítimas eram o empresário e político Renato Araújo e sua companheira, Jornalista Neiva Rocha Neves.
Encontrou tia Edith no corredor do hospital e soube do enfarte do seu marido. Chegara em casa, bêbado e exigira sexo, temendo o escândalo, ela cedera e no meio do ato de mal gosto, ele enfartara. Mas, iria sobreviver.
E Marisa?
Famílias e amigos decidiram por um velório conjunto. Quatro caixões, muita comoção, discursos e loas, lágrimas. Roberta ressuscitou a velha máquina e fez alguns registros discretos. Kássia a abraçou e confessou sua perplexidade. Parecia-lhe impossível o acontecido. Era impensável que Beatriz e Neiva estivessem mortas. Pragmática, Roberta respondeu secamente que acidentes aconteciam e pessoas morriam a todo instante. A autópsia verificara a grande quantidade de álcool nos corpos. E, se Marisa e o Velho não tivessem resistido, hoje seriam seis defuntos. Kássia teve um calafrio.
Hélio, Helindo, como o chamava a madrasta, parecia um zumbi de tão pálido, com olheiras profundas e um tremor de frio, apesar do calor que fazia. Ao abraço de Kássia reagiu fracamente, como se estivesse distante dali. Ela insistiu em lhe oferecer solidariedade, ele a empurrou e saiu da capela. Vagou entre os túmulos e finalmente parou e sentou-se sob um arbusto, adormecendo imediatamente. Os que o seguiam, voltaram para contar. Resolveram deixá-lo em paz até a hora do enterro, que seria em breve. Vieram padre e pastor e abençoaram os cadáveres. Pareciam sinceramente abatidos e Roberta imaginava o porquê, gordas contribuições não teriam continuidade depois desse fatídico momento.
Muitas mãos se ofereceram para levar os corpos até as covas. A multidão caminhava em silêncio, apenas sussurros e o vento, além dos passos nos pedriscos. Chegaram ao local e os caixões foram colocados sobre cavaletes para as últimas despedidas. Hélio se aproximou do pai e o olhou com fúria. É uma fase do luto, pensaram. Está bravo porque o pai o deixou. Ele não olhou para Neiva, bateu no esquife, como se quisesse derrubá-lo. Amigos o detiveram. No outro lado dos buracos fúnebres, surgiu Marisa.
Todos se admiraram. Parecia ter vindo direto do hospital, tal seu estado de abatimento. As filhas correram par ela, que as abraçou com sofreguidão. Depois, aproximou-se de todos e acariciou o rosto gelado de suas amigas. Lágrimas molharam seu rosto. Edith, Roberta e Kássia a confortaram com um longo abraço.
O enterro se fez. Hélio procurou por Marisa e lhe perguntou se acreditava que o pai iria encontrar sua família, mãe e irmã, como disseram os pastores. Marisa lhe disse que, se fosse certo que os mortos se encontram, ele não as encontraria, porque com certeza iriam para lugares diferentes. Por outro lado, tinha a desconfiança de que nada havia para ser encontrado, após a morte.
Marisa vivia com as filhas e os netos desde que se separara do pai das meninas. Tivera uma infância paupérrima, confusão de sexualidade no final da adolescência, comprimida entre a fé da família e os valores morais de uma igreja que não a ajudava em nada a enfrentar a dura realidade de uma moça pobre jogada aos lobos de sua cidade. Não teve namorados, no máximo ficantes. Muitos canalhas a encontraram. Aos trinta anos conheceu um homem casado e se apaixonou por ele, considerando-o sua única chance de sair do caritó. Tiveram um arremedo de casamento, uma relação que durou quatro anos e resultou em duas crianças.
Quando estava no hospital, entre a vida e a morte tivera um sonho: com suas filhas crianças andava por uma ruína, uma construção demolida, subiam, quando o pai as chamou, dizendo que haveria um presente para elas, do outro lado da parede. As meninas se animaram, uma correu entre os tijolos e a caçula pulou no colo da mãe para ir mais rápido. Subiram muitos degraus e chegaram a uma janela no alto da parede, com os vidros sujos e do outro lado, teias prendiam duas enormes baratas. Novo chamado do pai e desceram apressadas. Marisa quase caiu num degrau alto com sua filha agarrada ao seu pescoço. A mais velha começou a cantar uma canção ininteligível, mas de linda melodia e sua voz ressoava como em uma catedral. A música cessou quando ela chegou à beira de um precipício. Desesperada, Marisa acordou. Arrancou o acesso do braço e fugiu para o enterro. Contemplando o féretro, sentiu-se grata por estar viva e poder abraçar sua família.
Quanto à família de Hélio, ela o ajudaria a viver seu luto. Ele era a última sobra que pegaria de Neiva.
Numa discussão, Edith confrontou o Marido e ameaçou testemunhar sobre suas falcatruas. Ele a ameaçou e a mandou embora. Ela voltou para casa dos pais, mas antes, ajudada por Roberta, protocolou devidamente sua denúncia.
Renato exigiu saber a verdade, lembrando a Kássia o pacto que tinham de não segredo entre eles.
– Você não quer saber de verdade alguma. – Insinuou ela.
– Então, você realmente participou?
– Fiz a minha parte, e não me arrependo.
– Kássia, temos que conversar com o Pastor! – Renato estava preocupado.
– Com o Pastor, você tem certeza?
Ele não tinha. Melhor seria se apoiarem e esquecerem o acontecido. Ela amou sua decisão e caminhou sinuosa para ele. Como uma cobra enroscou-se em seu corpo. Amaram-se apaixonadamente. E o terceiro filho do casal pode ter sido concebido nesse ato. Juntos seguiram o curso da vida, cuidando dos filhos e louvando a Deus.
Roberta analisou a situação: quatro reclamantes a menos, dois processos encerrados. O interesse da Polícia Federal voltado para o caso, após denúncia de Edith. Juiz, delegado, agente da PF, agente da PRF, vereadores… Havia uma assustadora expectativa no ar. Se fossem verificadas a fundo as atividades dos defuntos e dos sobreviventes… Ela estava em perigo, mas não pretendia recuar. Havia muito trabalho a ser feito até que pudesse relaxar e dizer aos seus mortos:“Descansem em Paz”!
Roberta rebateu cada fundamento fático apresentando provas irrefutáveis. Demonstrou não ter havido prejuízo ao Artigo 1.277 do Código Civil, pois as ocorrências citadas fizeram parte de um fato isolado e particular da autora: uma mãe sob a dor da perda de uma filha, que naquele momento não era dona de seus atos e isso não tivera relação com as atividades do Ponto de Apoio. Apelou para o risco de manter fechada uma instituição tão necessária a saúde pública, pela demanda por acolhimento que se via pelas ruas da cidade. Apresentou todos os laudos solicitados e aguardou a sentença.
Apesar dos argumentos fortes e fundamentados em provas apresentados pela advogada de defesa, era muito forte a umpressão deixada pelo evento do ataque e da morte de Maria Teresa. A população da Vila Yolanda ainda se chocava com a lembrança do evento macabro. Era difícil isolar esse acontecimento, tendo sido ela uma voluntária do Ponto de Apoio. Após as ponderações, a Juíza decidiu pelo fechamento definitivo da casa.
As amigas ficaram decepcionadas. Kássia disse que alguns deveriam estar rindo no inferno, com o que Edith concordou.
– Pois eu acho que bons e maus agora são apenas pó, interferiu Marisa.
– Gente, isso não importa, precisamos decidir o que fazer. Devemos a Amelinha uma solução para esse imbróglio, exasperou-se Roberta. Marisa respondeu:
– Bem se a casa não pode mais abrir… vamos abrir outra, totalmente nova!
– Claro, é isso! – todas se alvoroçaram.
– Passe a jarra de água, Marisa! Vamos brindar a nova Casa de Apoio Amelinha! – pediu Roberta.
No inferno houve ranger de dentes, mas num plano superior, um suspiro se transformou em suave brisa e movimentou as cortinas na cozinha de Marisa e acariciou seu pescoço e refrescou a todas.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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