14 de setembro de 2026, o escritor uruguaio Mario Benedetti, nascido em 1920, estaria completando 106 anos. Benedetti faleceu em 2009. . (a Raúl Sendic) Estarás como sempre nalguma fronteira arriscando-te em teu lindo sonho e desvencilhado recordando os charcos e o conforto tudo junto tão desconfiado mas nunca incrédulo nunca mais que inocente nunca […]
14 de setembro de 2026, o escritor uruguaio Mario Benedetti, nascido em 1920, estaria completando 106 anos. Benedetti faleceu em 2009. . (a Raúl Sendic)
Estarás como sempre nalguma fronteira arriscando-te em teu lindo sonho e desvencilhado recordando os charcos e o conforto tudo junto tão desconfiado mas nunca incrédulo nunca mais que inocente nunca menos essa estéril fronteira com aduanas e bobeiras e medalhas e também esta outra que separa pretérito e futuro que bom que respires que conspires dizem que madrugaste muito cedo dizem que em plena festa cívica gritaste mas talvez nossa verdade seja outra por exemplo que dormimos até tarde até golpe até crises até fome até imundícia até sede até vergonha por exemplo que estás só ou com pouco que estás contigo mesmo e é bastante porque contigo estão os poucos muitos que sempre foram povo sem saber que bom que respires que conspires esta noite de calma apodrecida sob esta lua de meiguice e asco talvez no fundo todos conspiramos sensivelmente dás o sinal de fervor a bandeira decente com a haste de bambu mas no fundo todos conspiramos e não só os velhos que não têm com que pintar os muros de protesto conspiram o desempregado e o mendigo e o devedor e os podres puxa-sacos cujo incenso não rende como há cinco anos a verdade é que todos conspiramos mas não só o que tu imaginas conspiram claro que sem saber os hierarcas os cegos poderosos os donos de suas terras e de suas unhas conspiram que os piores facilitaram em teu favor que é o favor do tempo ainda que julguem que sua ira seja a única ou que descobriram o filão ou a pólvora conspiram os abonados os ministros os generais bem encadernados os venais os frouxos os inermes os crápulas os filhinhos da mamãe e as mamães que arranjam a morfina num abusivo preço inflacionado todos querendo-ou-não seguem conspirando inclusive o vento que bate em tua nuca e sopra no sentido da historia para que isso se rompa e termine de romper o que está esfrangalhado todos conspiram para que no fim logres e isto é o de bom que queria te dizer deixar para trás a cândida fronteira e te instale enfim em tuas visões nunca mais que inocente nunca menos em teu futuro-agora nesse sonho desvencilhado e lindo como poucos.
[Tradução de Salomão Sousa]
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Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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