Texto reproduzido da rede social do autor. . . Coloque para tocar um blues lento, chorado, mas não muito elétrico ou dissonante. Pode ter metais, uma leve percussão e alguns sopros. Com a câmera nas mãos, filme como num travelling, também lento, slow, percorra as ruas da cidade, em contraste em preto e branco e […]
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. Coloque para tocar um blues lento, chorado, mas não muito elétrico ou dissonante. Pode ter metais, uma leve percussão e alguns sopros. Com a câmera nas mãos, filme como num travelling, também lento, slow, percorra as ruas da cidade, em contraste em preto e branco e ainda em cores pouco saturadas. Procure os olhos das pessoas, as expressões, as risadas, a melancolia da vida. A música, o travelling, as vozes de Nick Cave, Tom Waits ou um bluezeiro, as pessoas, a vida. Feche os olhos. . Lá estou eu nos anos setenta. Precisamente 1974. Chego atrasado pela rua Almirante Barroso, abro o pequeno portão lateral, cruzo a quadra de esporte, as traves e os aros sem redes, subo um pequeno barranco, aclive de sibipirunas, pela lateral do prédio principal, chego no pátio em frente ao colégio defronte a avenida Jorge Schimmelpfeng – uma das poucas vias asfaltadas. Todas as turmas já estão perfiladas e cantam o hino nacional. . Imediatamente, eu paro, em posição de sentindo. Estou vestido com um novo uniforme. Calça bordô, camisa branca com o indefectível BM (vermelho e azul) bordado no bolso, sapatos pretos, meias brancas e uma blusa de frio que pode ser usada dos dois lados e pasta do material escolar, que era simples feita de lona e zíper. Espero o fim do ouviram do Ipiranga, como chamávamos e entro na fila da minha turma da sexta série. Ouvimos os avisos de praxe – não os lembro – e em fila dupla, fomos para sala de aula – terceira sala do corredor à esquerda do prédio principal. . Livros, cadernos, lápis, caneta, estojo com apontador, borracha, essas coisas, lápis de cores ou canetas hidrocor. A carteira, eu lembro, em móvel único – Móveis Cino. A primeira aula é com a professora Mercedes Maran. Logo no seu início, a diretora Eva Terezinha Vera, bate a porta e entra na sala. Me chama na frente e diz a todos que deviam seguir meu exemplo, como eu fizera poucos minutos atrás. Um misto de vergonha e resignação. O fiz por medo e pelo senso de autoridade que da minha mãe passei às professoras e a diretora Terezinha – uma morena bonita, olhar forte e sério. . Esse é um flash de um pouco da história que vivi durante seis anos na Escola Estadual Bartolomeu Mitre – de 1971 a 1976 – da terceira a oitava séries. Fiz parte da primeira turma a se forma no antigo 1º grau. Dias depois dos elogios da diretora Terezinha, eu e o Alexandre, assinávamos o “livro negro” – tudo culpa do Didi, ou seja, do Renato Aragão, que junto com Déde Santana, o Mussum e outro que não lembro (não era o Zacarias – acho que era o Sargento Pincel) formavam “Os Insociáveis” e tinham um programa semanal na TV. Didi tinha seu bordão o “aí vareia” – que significava pode ser como pode não ser. . Mercedes, professora de Ciências, explicava onde ficava o aparelho digestivo no corpo humano e com as duas mãos estendidas, indicou ficava ali, no ventre. E eu, lá do fundo da sala soltei um “aí, vareia” e o Alexandre puxou o coro das risadas. Os dois diretos para a diretoria e fizemos o nosso jamegão no famoso livro negro. Mais tarde, descobri que a professora já tinha flagrado o Alexandre desenhando os aparelhos reprodutores de homens e mulheres nas mais diversas escalas no quadro negro. . Eu era mirrado, mirrado mesmo. Cresci trancado em casa e a escola era minha diversão, um segundo mundo, um mundo melhor de tantas histórias e da primeira formação. E o Bartolomeu Mitre era um dos poucos colégios da cidade e rivalizava com o Monsenhor Guilherme – este sim, bem mais perto de casa, muito melhor estruturado, com mais salas, quadras, equipamentos e até um anfiteatro. Quem estudava no Monsenhor nos chamavam de burro morto – lembram do BM? Isso durou até a edição dos jogos escolares de 74 quando eu vi que o MG, de Monsenhor Guilherme, podia ser chamado de mula grávida. Nunca mais nos chamaram de burro morto. Eu não era bom em nenhum esporte, comecei a praticá-los somente aos 14 anos, então nunca fiz parte de nenhuma seleção da escola em qualquer tipo de modalidade, mesmo no atletismo. Só fazia parte da torcida e, é claro, queria jogar qualquer coisa que depois descobri que era só uma questão de técnica que se apura com a prática. . Um mirrado no meio dos marmanjões como Chico Leitão, Cid Gato, Toco, Elpídio, Collombelli, Delano e outros. Caxadas, roubar pastel da mãe do Benjamin, jogar britas pelas janelas das salas de aulas eram as travessuras dessa turma que não ia para diretoria por falta de prova ou flagrante. Andar com essa turma me rendeu uma surra do Ramón, filho de paraguaio, me deu umas porradas e eu fui chorar para o pai dele e pedir que lavasse minha camisa. Pai e filho nem aí para meu choro – era chorão mesmo. . De outra feita, o Taffarel me deu uma rasteira que desmaiei num barranco. Fui acordado com café forte, professora e diretora pegaram um táxi e me levaram pra casa. Lembro ainda de outro tranco que levei do Nego Palma e o cara ficou tão assustado com a minha falta de fôlego que me deu dois vales transportes para pegar ônibus – o ponto era em frente ao colégio e descia muito perto de casa na Avenida Brasil. . Essa era a minha escola onde eu passava seis, sete, oito horas por dia. Nos estudos, era acima da média, bom na leitura e era muito prático. Sempre gostei de história, minha letra horrível me afastava do português, muito bom em matemática, estudos sociais, ciências. A vergonha da turma foi quando a professora de português nos obrigou a fazer um jogral onomatopaico com a-lo-co-mo-ti-va na frente de todas as outras turmas. Eu e o Casca ficamos segurando cartaz e não cantamos nem o tiiii e nem o va-va-va. . Como disse, era ruim em quase todas as modalidades esportivas. Não sabia chutar, arremessar, jogar, nada, mas estava lá metido no meio. Alexandre Brito, Roberto, Marcos Gruszczynski, Chico Leitão, Cid Gato, Elpídio, Alcir, Robertinho, o pessoal do Boicy, eram bons atletas e formavam o time de futebol, de campo e salão, de escola. A vergonha foi quando a minha turma, a favorita, chegou à final do campeonato de futsal e perdeu para a turma da sexta série, de um ano anterior, formada pelo Julinho e Leonel. Esportista se tornou uma meta e comecei tarde, aos 14 anos, na oitava série e intensifiquei no primeiro ano do segundo grau. Passei um ano inteiro jogando de tudo – basquete e futsal, principalmente, e virei um atleta mediano. . Os amores no Mitre, ah, os amores. Apaixonei cedo, na quinta e sexta séries. Primeiro, a professora de ciências, Márcia era o nome dela. Um amor, óbvio, não correspondido. Depois pela Fátima, pedi para o Galeazzi entregar o bilhete para ela, foi uma desfeita só, ela começou dar em cima do Galeazzi. Partir para as meninas de uma série inferior a minha. Ela estudava no andar de cima, no bloco principal, joguei uma pedra na janela, chamei e a pedi em namoro. Assim mesmo, eu embaixo, no pátio, ela em cima, na janela. A menina não pensou duas vezes e disse “só se for com esse loirinho ao seu lado”. Frustração. Era o Javier Gimenez que me acompanhou para dar um apoio moral. A menina era a Roseli Mota. . Mas minha paixão mesmo foi pela Claudia Beatriz. Menina bonita, morena clara, tipo espanhola. Ia fazer trabalhos de escola na casa dela, à flertava contínua e ostensivamente. Claudia era uma amiga e se interessou por mim dois anos depois, era o aniversário dela no Disco Salvatti, ficamos sentados lado a lado, com o pai dela ao lado. Foi isso e por uma noite. A paixão acabou. Também teve uma menina que ficou a fim de mim e muito. E os colegas arrastavam minha carteira para o lado da carteira dela e eu, apavorado, nem sabia o que fazer. Ajudava-a nas matérias e seu olhar lânguido de pouco interesse nas minhas explicações, mas com intenções claras, objetivas. Era morena, jamba, e eu não lembro mais o nome da rosa. . É a escola que faz parte da minha história, da história da minha família – meu pai estudou nele e dois filhos meus também. O meu estágio de conclusão do curso de Letras foi nele e eu liberava um estudante irrequieto para fazer política estudantil. O nome dele: André Alliana. . E há muitas e boas histórias do Bartolomeu Mitre. O sumiço da bolsa da professora Glória Neumann, a cobrança por aulas de educação física aos sábados na casa do professor Ademar, o recreio e a cantina, o meu choro compulsivo quando roubaram uma figurinha premiada do meu álbum, preenchia a página, dava um prêmio, a paixão pela professora Elci Holler, o preconceito contra o Zé Boquinha e contra os Ostrufka, a briga com o Claudinho onde, mais uma vez, levei a pior, as gincanas em que o Arney Frasson era o destaque, os piqueniques, o Lesefi – uma das primeiras pesquisas em Foz, a professora Dona Itália – mãe da professora Marci, vice-diretora. . Quando adormeço, eu tenho um sonho recorrente. Sempre estou numa sala de aula prestes a me formar, sabendo que já passei por aquela fase, grau de ensino, mas cheio de dúvidas, igual ao feitiço do tempo, me perguntando, por que estou lá? Estou lá, abduzido. Sempre estou lá. Sou eu.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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