Dia 20 de maio comemora-se o Dia do Pedagogo, uma data que nos convida a uma reflexão essencial: será que todos nós sabemos, de fato, qual é a função e a importância desse profissional dentro de um espaço educacional? No senso comum, as pessoas costumam associar o pedagogo exclusivamente à figura do professor da educação […]
Dia 20 de maio comemora-se o Dia do Pedagogo, uma data que nos convida a uma reflexão essencial: será que todos nós sabemos, de fato, qual é a função e a importância desse profissional dentro de um espaço educacional? No senso comum, as pessoas costumam associar o pedagogo exclusivamente à figura do professor da educação infantil ou dos anos iniciais do ensino fundamental. E ele é, sim, esse docente. Porém, historicamente, o pedagogo foi construindo uma identidade e uma atuação profissional que vão muito além da docência nas salas de aula, consolidando-se como um articulador fundamental da organização do trabalho pedagógico e da própria função social da escola.
Inicialmente, o curso de pedagogia formava profissionais com habilitações fragmentadas e direcionadas para funções de caráter fortemente tecnicista, como o supervisor, o orientador educacional e o diretor escolar. No entanto, com o avanço dos estudos, das pesquisas e da própria experiência vivenciada no processo histórico dessa profissão, essa visão reducionista e burocrática foi se modificando.
Compreendeu-se que o pedagogo não poderia ficar restrito a cargos isolados e estanque dentro da instituição, mas que deveria atuar como o grande articulador do trabalho pedagógico coletivo. É essa concepção que defendemos hoje: o pedagogo, além da docência, desempenha um papel essencial e estratégico nos espaços educacionais. Ele é aquele que orienta os professores, dialoga com os estudantes e acolhe a comunidade escolar, agindo como o elo que organiza e dá intencionalidade a elementos estruturantes da escola, tais como o currículo, o planejamento e a avaliação.
Ao acompanhar de perto o processo de ensino-aprendizagem, este profissional é responsável por dar o tom do caminho que a escola vai direcionar, garantindo que todas as ações estejam alinhadas à socialização do saber sistematizado. Por isso, enquanto defensores de uma educação crítica, compreendemos que o pedagogo é, fundamentalmente, um intelectual e um articulador político dentro da escola. Sua atuação não é neutra; ela visa organizar o trabalho pedagógico de modo que a apropriação do conhecimento universal se converta em um instrumento de emancipação e de transformação social para a classe trabalhadora.
Portanto, um pedagogo munido de consciência de classe e ciente de que a escola pública atende prioritariamente aos filhos e filhas da classe trabalhadora é aquele que acompanha o trabalho dos docentes e dos estudantes, e dialoga com as famílias, tendo uma clareza política muito bem definida: a de priorizar e garantir que o espaço escolar esteja estruturado e direcionado para que esses sujeitos se apropriem dos conteúdos científicos, filosóficos e artísticos sistematizados em suas formas mais desenvolvidas até esse momento pela humanidade. Esse é o verdadeiro papel do pedagogo como articulador do trabalho pedagógico à luz da pedagogia histórico-crítica. Longe de ser um mero burocrata que preenche relatórios ou um profissional restrito à docência individual, ele tem uma atuação política que organiza os tempos, os espaços e as reflexões coletivas. Sua função é assegurar as condições necessárias para que o professor consiga transmitir com qualidade e intencionalidade o saber elaborado, viabilizando que os filhos da classe trabalhadora acessem e se apropriem dos conhecimentos indispensáveis para a sua formação humana plena e para a leitura crítica de uma sociedade ainda dividida em classes.
E essa articulação pedagógica, que é, indissociadamente, uma articulação política, o pedagogo irá desenvolver em absolutamente todos os espaços em que puder atuar. Seja como pedagogo hospitalar, penal, indígena, quilombola, empresarial, do campo, da educação especial, da educação de jovens e adultos, da educação infantil, do ensino fundamental, do ensino médio, em projetos sociais e todos os espaços que tenham como função a formação humana, portanto, o cerne de sua função permanece o mesmo: ser o articulador do processo pedagógico. Sob a luz da pedagogia histórico-crítica, essa atuação se dá de forma declaradamente política, pois compreendemos que a educação não é neutra, a teoria pedagógica não é neutra e, consequentemente, um pedagogo com consciência de classe jamais reduzirá seu trabalho a um fazer puramente técnico.
Atuar politicamente significa articular cada situação que ocorre no cotidiano educativo compreendendo que as contradições e as dificuldades enfrentadas são reflexos diretos do modelo de sociedade em que vivemos, uma sociedade dividida em classes. No entanto, recusamos o fatalismo: a educação não é mera reprodutora das desigualdades; ela guarda em si a potência de ser transformadora. Dentro da escola pública, esse papel político ganha uma responsabilidade ainda mais profunda. É com a classe trabalhadora, que é a nossa classe, que devemos atuar de forma intencional, planejada e direcionada, garantindo que todos, sem exceção, tenham o direito de se apropriar do patrimônio cultural, científico e filosófico que a humanidade produziu até o momento, transformando o saber elaborado em uma ferramenta de luta e emancipação.
Para encerrar esta reflexão sobre ser pedagogo e a nossa identidade e o nosso compromisso, recordo as palavras do professor Dermeval Saviani em sua produção teórica, que sintetizam com maestria a essência da nossa função e atuação. Dirigindo-se a nós, ele afirma:
“A vocês que, diante de tantas profissões glamourosas e diuturnamente aclamadas pela mídia, optaram por se tornar pedagogos (profissionais da educação), o mais apaixonante de todos os ofícios, pois se dedica a produzir a humanidade no homem, desejo que se empenhem no estudo dos fundamentos teóricos da educação visando adquirir pleno domínio das formas que possam garantir ás camadas populares, por meio do trabalho pedagógico escolar a apropriação dos conhecimentos sistematizados. […] Em vocês, a nova geração de brasileiros deposita suas esperanças de frequentar uma escola preparada para conduzir as crianças e os jovens da classe trabalhadora ao domínio da cultura letrada, aquela que domina a sociedade em que vivemos.”
É justamente movidos por essa paixão, que não é passividade, mas luta, indignação e afeto revolucionário, que reafirmamos o papel do pedagogo.
Sabemos que os tempos estão difíceis. Estamos vivenciando a plataformização na educação e um retorno do neotecnicismo com toda força nas redes estaduais e municipais.
Atualmente, enfrentamos uma diretriz que busca reduzir o pedagogo a um mero técnico, um simples aplicador da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). No entanto, é por meio da nossa resistência política e do nosso compromisso social que seguimos lutando para fazer valer o que é, realmente, a nossa função.
Que o nosso dia 20 de maio seja um marco de resistência, para que continuemos a exercer com rigor técnico e clareza política, de acordo com Saviani, esse que é, sem dúvida, o mais apaixonante e transformador de todos os ofícios.
Seguimos na luta! .
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Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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