Artigo de Julia Malanchen (*) – O Dia das Mães, embora revestido por uma aura de sentimentalismo e celebração afetiva, opera frequentemente como um dispositivo de ocultamento das contradições que sustentam a maternidade na sociedade capitalista. Ao centralizar a data na figura da “mãe heroína” ou no “amor incondicional”, o discurso hegemônico individualiza uma responsabilidade […]
Artigo de Julia Malanchen (*) –
O Dia das Mães, embora revestido por uma aura de sentimentalismo e celebração afetiva, opera frequentemente como um dispositivo de ocultamento das contradições que sustentam a maternidade na sociedade capitalista. Ao centralizar a data na figura da “mãe heroína” ou no “amor incondicional”, o discurso hegemônico individualiza uma responsabilidade que deveria ser coletiva. Essa romantização cumpre um papel ideológico preciso: ao transformar o trabalho de cuidado em uma “dádiva natural”, esvazia-se o debate sobre as políticas públicas, a divisão desigual do trabalho doméstico e a precarização da vida das mulheres da classe trabalhadora que exercem a maternidade.
“Ao centralizar a data na figura da “mãe heroína” ou no “amor incondicional”, o discurso hegemônico individualiza uma responsabilidade que deveria ser coletiva. Essa romantização cumpre um papel ideológico preciso: ao transformar o trabalho de cuidado em uma “dádiva natural”…
Para além do afeto, é preciso encarar a data como um pilar fundamental do calendário comercial, onde o afeto é mediado pela mercadoria. O imperativo do consumo no Dia das Mães não apenas movimenta grandes cifras, mas também estabelece um padrão de “boa maternidade” vinculado à capacidade de aquisição. Nesse cenário, as mães que estão à margem do sistema produtivo, muitas vezes as principais responsáveis pela manutenção da força de trabalho, são duplamente invisibilizadas: seja pela falta de suporte do Estado, seja pela impossibilidade de se verem representadas no ideal estético e material das campanhas publicitárias.
Nesse sentido, o Dia das Mães revela uma tensão central entre o valor de uso e o valor de troca das relações humanas. Por um lado, a data é defendida como uma parada na rotina, um momento necessário de encontro, reconhecimento e celebração dos laços de afeto com aquelas que amamos. É o instante em que a subjetividade e a história pessoal tentam reivindicar seu espaço. No entanto, esse potencial de encontro é prontamente capturado pela lógica mercantil, que condiciona a manifestação desse amor à aquisição de produtos, transformando o sentimento em um indicador de desempenho para o varejo.
O festejar do comércio, portanto, acaba por ditar o ritmo e a forma das celebrações, criando uma necessidade artificial que sobrepõe o “ter” ao “estar”. Quando o lucro se torna o protagonista da data, a homenagem é esvaziada de sua dimensão política e social: celebra-se a mãe enquanto consumidora ou objeto de consumo, enquanto se silencia sobre a exploração do trabalho de cuidado que sustenta o próprio sistema. Assim, o que deveria ser uma exaltação da vida e dos vínculos afetivos muitas vezes se reduz a uma engrenagem fria da acumulação, onde o afeto só é validado se for capaz de gerar lucro.
“Quando o lucro se torna o protagonista da data, a homenagem é esvaziada de sua dimensão política e social: celebra-se a mãe enquanto consumidora ou objeto de consumo, enquanto se silencia sobre a exploração do trabalho de cuidado que sustenta o próprio sistema.”
A estatística alarmante de mais de 10 milhões de lares brasileiros chefiados por mulheres, muitas vezes lidas sob o estigma da “mãe solteira” desmistifica a celebração harmônica do comércio. Essa realidade não representa apenas um arranjo familiar, mas sim a materialização da sobrecarga no cotidiano das mulheres. Para essas mulheres, a maternidade não é exercida em uma rede de apoio sólida, mas em um isolamento estrutural onde a responsabilidade pelo sustento econômico, o cuidado emocional dos filhos e o trabalho doméstico recaem sobre um único corpo. É a jornada tripla que se torna o motor invisível da sobrevivência de uma parcela significativa da população.
Portanto, enquanto o mercado celebra o consumo, a realidade dessas mães é a de uma luta constante contra a escassez de tempo e de recursos. A “mãe sola” é aquela que trabalha fora para garantir o pão, mas que, ao retornar ao lar, encontra uma nova jornada de trabalho não remunerado à sua espera. Essa estrutura revela que o sistema atual depende da exaustão feminina para se manter: o Estado e a iniciativa privada se isentam, enquanto essas mulheres absorvem sozinhas os custos sociais e físicos da reprodução da vida. Celebrar o Dia das Mães sem pautar a responsabilidade compartilhada e as políticas públicas de amparo é, no fundo, validar a exploração de sua mão de obra e de seu afeto.
“A rejeição aos rótulos de “guerreira” ou de figuras “divinas e imaculadas” é, em última análise, um grito pela humanização da mulher. Tais adjetivos, embora pareçam elogiosos, servem apenas para normalizar a exaustão e silenciar a dor da sobrecarga.
A rejeição aos rótulos de “guerreira” ou de figuras “divinas e imaculadas” é, em última análise, um grito pela humanização da mulher. Tais adjetivos, embora pareçam elogiosos, servem apenas para normalizar a exaustão e silenciar a dor da sobrecarga. O que se reivindica não é um pedestal, mas o reconhecimento do papel social da mãe e, acima de tudo, o direito ao tempo. Um tempo que permita o florescimento do afeto, do lazer e do cuidado genuíno, elementos que são sistematicamente roubados por uma organização do trabalho que prioriza a produção de valor em detrimento da reprodução da vida com qualidade.
Nesse contexto, a luta contra a escala 6×1 apresenta-se como uma pauta central e inadiável para a maternidade. A jornada exaustiva é a barreira física que impede a mãe de participar ativamente da vida escolar dos filhos, de desfrutar de momentos de ócio criativo e até de mediar o acesso das crianças às tecnologias e telas que muitas vezes acabam ocupando o vácuo deixado pela ausência forçada dos pais. A sobrecarga feminina não gera apenas cansaço; ela gera um adoecimento coletivo, pois priva a nova geração de uma educação pautada na presença e no diálogo.
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Portanto, celebrar o Dia das Mães sob uma nova perspectiva exige pautar políticas públicas que garantam o suporte material e temporal para as mulheres. Comemorar esta data deve ser um ato de resistência contra a lógica capitalista que reduz o amor ao consumo e o cuidado à exploração. É preciso lutar por uma sociedade onde o “tempo de qualidade” com os filhos não seja um privilégio de poucas, mas um direito garantido, permitindo que a maternidade deixe de ser sinônimo de renúncia e sacrifício para se tornar uma vivência de afeto, autonomia e bem-estar.
Ao parabenizarmos todas as mulheres neste Dia das Mães, fazemos isso com a consciência de que o melhor presente não se encontra nas prateleiras do comércio, mas na conquista de uma vida digna. Nosso desejo e nossa luta são para que o tempo deixe de ser um luxo e passe a ser um direito: tempo para acompanhar verdadeiramente cada etapa da educação, da criação e do crescimento de nossos filhos. Mais do que uma celebração datada, este é um chamado para que possamos construir coletivamente uma outra sociedade — onde o cuidado seja compartilhado, onde o trabalho não nos roube a convivência e onde o exercício da maternidade possa ser pleno, afetuoso e, acima de tudo, humano para todas as mulheres que fizeram essa escolha.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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