Obra do professor da USP Alexandre Macchione Saes – lançada recentemente – analisa debates teóricos, atuação política e a interdisciplinaridade de um dos maiores economistas brasileiros. Com o lançamento do livro Celso Furtado – A Busca de um Novo Horizonte Utópico, o que os leitores têm em mãos é uma análise crítica do legado do economista […]
Obra do professor da USP Alexandre Macchione Saes – lançada recentemente – analisa debates teóricos, atuação política e a interdisciplinaridade de um dos maiores economistas brasileiros.
Com o lançamento do livro Celso Furtado – A Busca de um Novo Horizonte Utópico, o que os leitores têm em mãos é uma análise crítica do legado do economista paraibano Celso Furtado (1920-2004), com destaque para a atualidade da sua interpretação histórico-estrutural da economia brasileira e latino-americana.
Livro analisa a trajetória intelectual e a atuação política do economista Celso Furtado – Foto: IEB-USP
Escrito por Alexandre Macchione Saes, professor de História Econômica da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, o volume é resultado de sua tese de livre-docência – defendida no ano passado – e será lançado no dia 15 de junho, às 18 horas, na Sala da Congregação da FEA. A entrada é grátis.
Como o próprio Saes conta em entrevista ao Jornal da USP, a obra é um complemento a Celso Furtado – Trajetória, Pensamento e Método (Autêntica, 2025), livro escrito por Saes em parceria com o professor Alexandre de Freitas Barbosa, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Enquanto o volume de 2025 se organiza como uma narrativa cronológica, propondo-se uma biografia intelectual que constrói a trajetória de Furtado e discute suas principais contribuições teóricas e históricas, a nova publicação avança em seus principais temas e interlocuções.
“O livro atual”, diz Saes, “busca oferecer recortes temáticos sobre a obra do autor, aprofundando os debates com a literatura especializada e observando, por exemplo, como temáticas sobre o meio ambiente, a educação, a cultura ou abordagens sobre a história econômica, a teoria econômica e a teoria de dependência estiveram presentes em sua obra”.
Três eixos organizam Celso Furtado – A Busca de um Novo Horizonte Utópico. O primeiro, intitulado Dos Pilares Formativos aos Debates Contemporâneos, apresenta os diálogos que Furtado trava com as principais correntes da teoria econômica. Como explica Saes, Furtado foi um dos principais expoentes do estruturalismo latino-americano, corrente de interpretação histórica e econômica empenhada em enfrentar o subdesenvolvimento na periferia do capitalismo.
Dessa forma, na primeira parte do livro Saes mostra como Furtado confronta sua perspectiva com a dos economistas da chamada Nova Economia Institucional e também dialoga com as teses pós-keynesianas, indo além do conhecimento que se produziu nos principais centros universitários internacionais. “Furtado se tornou um economista amplamente reconhecido entre as décadas de 1950 e 1960 por suas contribuições em torno dessa leitura sobre a teoria do desenvolvimento, que refutava modelos econômicos que não estivessem aterrados nas realidades e especificidades das economias e sociedades latino-americanas.”
Já a segunda parte do volume, Peregrinos da Ordem do Desenvolvimento, analisa a atuação política de Furtado, enquadrando sobretudo seu papel como formulador de políticas públicas durante o período das reformas de base de João Goulart. “Entre 1959 e 1964, Celso Furtado mergulhou na vida pública brasileira”, lembra Saes. “Tinha acabado de retornar de um ano sabático em Cambridge, onde escreveu seu clássico Formação Econômica do Brasil, e, com pouco tempo no BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, atual BNDES), foi convidado pelo presidente Juscelino Kubitschek para criar um projeto de desenvolvimento para o Nordeste, que seria materializado na Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste).”
Como superintendente da Sudene e depois ministro do Planejamento de João Goulart, Furtado assumiu posição central na elaboração de políticas de combate à fome e à desigualdade no Nordeste, explica Saes. Entre suas propostas estava a industrialização e a transformação da estrutura agrária da região. Como ministro, elaborou o Plano Trienal, que traçava mecanismos para conter a crise econômica, enquanto procurava não deixar de lado reformas estruturais, as chamadas reformas de base, dando sentido de desenvolvimento econômico e social para políticas econômicas.
“Suas ideias foram muito disputadas”, recorda Saes, “resultando na perseguição que Furtado sofreu por parte do governo dos Estados Unidos, no contexto pré-golpe militar, e no exílio do economista.”
A terceira parte do livro, Método e Temas para Pensar o Contemporâneo, oferece uma mirada interdisciplinar da obra de Furtado, mostrando as conexões de seu pensamento em campos tão variados como a cultura, o meio ambiente e a criatividade. “Celso Furtado é especialmente reconhecido por suas contribuições no campo da economia do desenvolvimento e sua versão da história econômica do Brasil. Não obstante, a partir dos anos 1970, tanto pelas transformações do capitalismo como também pela necessidade de sua revisão sobre como enfrentar os desafios do subdesenvolvimento, Furtado passou a encontrar em novos temas e problemas caminhos para novas ‘utopias’”, declara Saes.
É nesse quadro que a questão do meio ambiente, por exemplo, passa a integrar suas preocupações, inserida nos debates da universalização do desenvolvimento. “A partir de então, os limites ambientais precisavam fazer parte dessa equação sobre as formas de superação do subdesenvolvimento”, pontua Saes.
Outro tema discutido no livro pelo professor é a educação, preocupação de Furtado que ainda é pouco considerada pela literatura, segundo ele. “Buscamos mostrar não somente como Furtado tratou a relevância da educação para a sociedade brasileira, mas também como ela era parte de um projeto democrático, muito mais amplo do que a perspectiva de capital humano, como usualmente tratada por economistas”, explica Saes.
O professor Alexandre Macchione Saes – Foto: Divulgação/FEA-USP
Conforme relata o professor, parte considerável da pesquisa que resultou em Celso Furtado – A Busca de um Novo Horizonte Utópico se valeu de documentos do Arquivo Celso Furtado, sob a guarda do IEB. Saes teve acesso a correspondências, manuscritos e materiais inéditos, incluindo informações sobre sua atuação no governo entre 1959-1964. “Por meio de textos produzidos, cartas trocadas, relatórios elaborados, é possível percorrer todo o ambiente de reflexão e de atuação política de Furtado, estabelecendo contato com diferentes grupos políticos e fazendo a política em sua forma mais viva”, conta Saes.
Para o professor, tendo falecido há mais de 20 anos, é evidente que Celso Furtado não tem como oferecer respostas para os desafios contemporâneos do Brasil. Contudo, existem dois legados de sua trajetória que Saes considera merecerem destaque. “O primeiro é sobre o seu método. Como economista, ele sempre buscou mediar a análise econômica da conjuntura por meio de um olhar interdisciplinar, sem se valer de modelos preestabelecidos, mas buscando a criatividade para estabelecer novas respostas”, indica o professor. “Por outro lado, sua crítica ao capitalismo e à racionalidade instrumental, que prioriza os meios aos fins, o levou a buscar novos ‘horizontes utópicos’, perspectiva tão necessária para nossos dias”, finaliza.
Celso Furtado – A Busca de um Novo Horizonte Utópico, de Alexandre Macchione Saes, Ateliê Editorial, 392 páginas, R$ 150,00.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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