Ela levou uma facada na região da cervical, atingida pelo ex-companheiro, enquanto segurava o filho de 6 meses no colo. O irmão dela também foi agredido, mas conseguiu socorrê-la, chamaram a polícia, emergência médica, porém, ela ficou com paralisia nos membros superiores e inferiores, recebendo posteriormente um laudo de tetraplegia. O caso ocorreu em setembro […]
Ela levou uma facada na região da cervical, atingida pelo ex-companheiro, enquanto segurava o filho de 6 meses no colo. O irmão dela também foi agredido, mas conseguiu socorrê-la, chamaram a polícia, emergência médica, porém, ela ficou com paralisia nos membros superiores e inferiores, recebendo posteriormente um laudo de tetraplegia.
O caso ocorreu em setembro de 2024 em Foz do Iguaçu e foi a júri popular em 9 de junho de 2026. O homem, hoje com 22 anos, recebeu condenação por tentativa de feminicídio e, por ser réu primário, entre outras atenuantes, foi condenado a pena de 12 anos e meio de reclusão. O caso foi acompanhado desde o início pelo Núcleo Maria da Penha (Numape) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) de Foz do Iguaçu.
“As mulheres devem receber todo tipo de proteção principalmente nos casos de feminicídios. São vítimas que, muitas vezes, são mães solo, várias delas desamparadas pelos próprios familiares, não têm acolhida nem de pais para voltar para a casa deles, pois preferem que vivam com o agressor a vê-la novamente em casa”, explica o promotor de Justiça, Nielson Norberto de Azeredo, responsável pela 13ª Promotoria de Justiça de Foz do Iguaçu, dos Crimes Dolosos contra a Vida.
A pena não vai reparar totalmente o dano. Após dois anos, ela continua em fisioterapia constante, conseguiu recuperar parte dos movimentos, tem um filho de dois anos e meio para cuidar, com dificuldades para trabalhar, prover o seu sustento e de seu filho.
“Desde quando sofri a tentativa de feminicídio, eu nunca mais fui a mesma. Até hoje sofro consequência da violência. Não tem sido fácil, mas tenho encontrado pessoas muito boas, principalmente do Numape que, mesmo depois de quase dois anos continuam prestando assistência, esclarecendo dúvidas, aconselhando, mandando mensagens, sempre me amparando. Sou muito grata a eles”, conta a vítima.
Esse foi um de 16 julgamentos de tentativa de feminicídio acompanhados pelo núcleo da Unioeste de Foz do Iguaçu nos últimos três anos. O Numape é um projeto da Unioeste, financiado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (SETI/PR) que atua de forma integrada com o Projeto Maria da Penha, financiado pela Itaipu Binacional, com recursos do governo federal. Dá suporte às vítimas e na prevenção de casos graves, com uma equipe de professoras orientadoras das áreas de Direito e Psicologia, advogadas, psicólogas e estagiárias.
Para a coordenadora do Numape de Foz, Isadora Minotto Gomes Schwertner, o caso que foi a júri recentemente retrata bem a situação dessas vítimas. “São mulheres que hoje contam com medidas protetivas, com suporte jurídico, mas que levam sequelas para toda a vida da violência sofrida”, diz Isadora.
Em 2025, o Paraná registrou 87 casos de feminicídios, de acordo com a Secretaria Estadual da Segurança Pública, o que representou uma queda de 20% em relação a 2024. Neste ano, o Estado implantou o Programa de Monitoração Eletrônica Simultânea em Foz do Iguaçu e São José dos Pinhais, além de Curitiba, onde já operava. Ele permite o acompanhamento em tempo real tanto do agressor quanto da mulher com medida protetiva judicial. Dados do Conselho Nacional de Justiça apontam que, até final de Abril, 34.834 medidas protetivas a mulheres estavam ativas no Paraná, sendo 784 em Foz do Iguaçu. São medidas que ajudam a diminuir os casos de feminicídios.
Hoje, o Numape de Foz atende a 3.384 processos dos mais diversos. Essas mulheres não teriam condições de arcar com os custos de assistência jurídica e recebem, além desse auxílio de advogadas, o suporte de psicólogas para poder se fortalecer para buscar sair de situações de violência e reparar minimamente o dano causado por ela.
“Nós atendemos as mulheres em situação de violência, prestamos assistência jurídica qualificada à vítima no processo das medidas protetivas e na ação penal, assim como acompanhamos a vítima na audiência, conforme o art. 27 da Lei Maria da Penha, e como extensão das medidas protetivas ajuizamos ações de divórcio, guarda, alimentos, convivência, reconhecimento e dissolução de união estável e outras na Vara de Família”, conta a advogada Alessandra Cabanha, da equipe do núcleo.
A psicóloga Carline Engel Krein do núcleo relatou um atendimento recente que reflete o dia a dia da equipe de 14 profissionais: “Hoje, fiz o atendimento de apoio psicológico da M., uma de nossas assistidas. A M., como todas nossas assistidas, chegou no Numape em pedaços. Hoje, ela me disse que, desde o primeiro atendimento, se sentiu acolhida, escutada e compreendida sem julgamentos tanto pela Psicologia quanto pelo setor jurídico. No dia desse encontro, ela teve uma audiência de conciliação acompanhada pela Dra. Ana Zélia e disse que todos os medos dela foram embora porque se sentiu acompanhada, defendida e orientada como merecia e passou a entender que merecia. São coisas assim que nos fazem continuar em meio ao caos que é o nosso trabalho”.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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