Opinião de Nathalie Husson, membra do Cafi – Coletivo ambiental de Foz. – O engenheiro especialista em energia e clima Jean-Marc Jancovici, autor da HQ O Mundo sem fim, alerta há muitos anos para os limites físicos do nosso modelo energético. Mais do que o “fim do petróleo”, independentemente da questão climato – ambiental, trata-se […]
Opinião de Nathalie Husson, membra do Cafi – Coletivo ambiental de Foz. –
O engenheiro especialista em energia e clima Jean-Marc Jancovici, autor da HQ O Mundo sem fim, alerta há muitos anos para os limites físicos do nosso modelo energético. Mais do que o “fim do petróleo”, independentemente da questão climato – ambiental, trata-se do fim do petróleo bom, barato, abundante e capaz de sustentar o crescimento contínuo das economias modernas , medido pelo PIB.
Sem caminhões, as cidades deixam de ser abastecidas. Sem transporte marítimo e aéreo, o comércio global desacelera drasticamente – Foto: Claudio Siqueira (H2Foz), com o uso de ferramentas de I.A.
Se, após o episódio do COVID, o mundo pareceu retomar uma certa normalidade, as tensões recentes — da guerra na Ucrânia às instabilidades no Oriente Médio — mostram o contrário. O duplo bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quarto do petróleo comercializado globalmente — evidencia a fragilidade estrutural de uma economia ainda profundamente dependente dessa fonte de energia. Não se trata apenas de um risco regional, mas de um potencial choque sistêmico. O presidente da AIE declarou que o choque petrolífero atual é de uma amplitude maior do que em 1973, 1979 e 2022 combinados. Alguns analistas falam de um choque de deslocamento das cadeias de abastecimento.
As consequências já começam a ser sentidas com a elevação do preço da gasolina, resultado da redução dos fluxos físicos de petróleo, em particular pela destruição de infraestruturas petrolíferas, e das perturbações na circulação do produto. Mas limitar o problema ao combustível seria um erro de análise. Como sublinha Jancovici, os usos do petróleo estão na base do modo de vida da nossa sociedade fóssil.
Uma parte significativa não é queimada: cerca de um terço, na saída das refinarias, serve como matéria-prima petroquímica. A nafta, por exemplo, está na origem das fibras sintéticas do setor têxtil, dos plásticos — das sacolas às embalagens alimentares —, dos materiais de construção, de inúmeros componentes de objetos do cotidiano, incluindo eletrodomésticos. O petróleo também permite a produção de lubrificantes e asfaltos. sem falar dos remédios e cosméticos. Em termos concretos, ele está em toda parte.
Outro setor estruturalmente dependente é o da logística. Sem caminhões, as cidades deixam de ser abastecidas. Sem transporte marítimo e aéreo, o comércio global desacelera drasticamente. A agricultura moderna, por sua vez, depende de tratores, máquinas e insumos cuja produção e distribuição são intensivas em energia fóssil.
Se mais de 55% da população mundial vive hoje em áreas urbanas, a questão do abastecimento e da dependência energética se coloca de forma ainda mais aguda. Como destaca Stefano Mancuso em Fitópolis, a cidade funciona como um organismo com um metabolismo altamente intensivo: depende de entradas maciças de energia e de recursos — alimentos, água, materiais — e, em contrapartida, produz grandes quantidades de resíduos e de poluição. Trata-se de um sistema aberto, estruturalmente dependente de fluxos externos.
“Se mais de 55% da população mundial vive hoje em áreas urbanas, a questão do abastecimento e da dependência energética se coloca de forma ainda mais aguda. Como destaca Stefano Mancuso em Fitópolis, a cidade funciona como um organismo com um metabolismo altamente intensivo: depende de entradas maciças de energia e de recursos — alimentos, água, materiais.”
É a partir dessa vulnerabilidade que a situação da região trinacional articulada em torno de Foz do Iguaçu se torna particularmente reveladora. Somando mais de um milhão de habitantes entre Brasil, Paraguai e Argentina, esse território depende de cadeias logísticas longas e energeticamente intensivas para garantir seu abastecimento cotidiano.
A cidade de Foz, com cerca de 285 mil habitantes, recebe ainda um fluxo anual de aproximadamente 5,8 milhões de turistas, atraídos pelas Cataratas do Iguaçu. Essa pressão populacional flutuante intensifica a necessidade de abastecimento contínuo, reforçando a dependência de fluxos externos.
Mais profundamente, o próprio modelo agrícola dominante — o agronegócio — é inseparável do sistema fóssil. Da mecanização intensiva ao uso de fertilizantes sintéticos, passando pelo transporte em larga escala, trata-se de uma produção altamente dependente de energia barata. Sem petróleo, ou com petróleo caro, todo esse sistema entra em tensão. Em outras palavras: inflação á vista. Combinado a uma recessão, entramos num momento de estagflação.
Mas há um ponto frequentemente negligenciado: o agronegócio não produz alimentos no sentido estrito, e sim commodities. Soja, milho, cana-de-açúcar e algodão são majoritariamente destinados à exportação, à ração animal ou à indústria. Nenhuma população vive diretamente desses produtos. Ao mesmo tempo, a alimentação disponível é cada vez mais composta por produtos ultraprocessados, associados ao aumento de carências nutricionais e de doenças crônicas. Soma-se a isso a pecuária bovina, que mobiliza vastas extensões de terra e, ainda assim, contribui de forma relativamente limitada para o aporte nutricional global, evidenciando uma baixa eficiência entre uso do solo e valor alimentar.
Diante disso, emerge uma questão simples e decisiva: quem alimenta, de fato, uma região como a de Foz do Iguaçu?
A resposta é inquietante. O abastecimento alimentar depende amplamente de territórios externos e de cadeias logísticas longas, vulneráveis a choques energéticos e geopolíticos. Paralelamente, os solos urbanos e periurbanos, assim como áreas rurais próximas, estão submetidos à pressão crescente da especulação imobiliária, que tende a deslocar a produção local de alimentos em favor de usos mais rentáveis no curto prazo.
Esse duplo movimento — dependência externa e perda de capacidade produtiva local — fragiliza profundamente a segurança alimentar regional. Em um cenário de encarecimento ou de ruptura no fornecimento de energia, o abastecimento deixa de ser uma questão abstrata e se torna imediatamente concreta.
A crise energética revela, assim, uma crise mais profunda: a dissociação entre os territórios e sua capacidade de se alimentar. Recolocar a produção alimentar no centro das dinâmicas urbanas e regionais não é apenas uma escolha ecológica ou sanitária, mas uma condição de resiliência diante de um mundo onde a energia tende a se tornar mais cara, mais escassa e mais incerta.
Diante desse cenário, a questão deixa de ser apenas analítica: o que eu posso fazer?
“A crise energética revela, assim, uma crise mais profunda: a dissociação entre os territórios e sua capacidade de se alimentar. Recolocar a produção alimentar no centro das dinâmicas urbanas e regionais não é apenas uma escolha ecológica ou sanitária, mas uma condição de resiliência”
A geopolítica não é distante. Ela atravessa diretamente o nosso cotidiano e precisa ser compreendida e apropriada por nós, cidadãos. Mas compreender não basta — é preciso agir.
Isso passa pela política no seu sentido essencial: cuidar da polis, da cidade, das condições concretas de vida coletiva. Isso implica defender a produção local de alimentos, preservar solos agrícolas e participar ativamente das decisões sobre o uso do território.
Em um mundo de energia mais cara e incerta, a autonomia local deixa de ser uma opção e se torna uma necessidade. Fazer política é, portanto, assumir — junto aos outros — a responsabilidade de tornar o futuro possível num território habitável.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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