Poema reproduzido do jornal Cândido, edição 128. O poema integra o livro “Instruções para Morder a Palavra Pássaro” editado pela autora em 2022. Encontro a poeta num café Já sabendo da situação delicadíssima Então fui preparada para dizer Minhas melhores palavras Eu que não passo de uma aspirante A qualquer coisa que envolva signos Por […]
Encontro a poeta num café Já sabendo da situação delicadíssima Então fui preparada para dizer Minhas melhores palavras Eu que não passo de uma aspirante A qualquer coisa que envolva signos Por coincidência, ela estava sóbria Notei uns pelos de gato em seu casaco Um inverno improvisado em pleno verão De súbito, ela me conta uma lembrança recorrente Um dia da infância em que matou aula E foi com a filha do pipoqueiro [Isso mesmo, a filha do pipoqueiro] A um subúrbio longe As bicicletas deixando o asfalto E ganhando um rastro de poeira As casinhas abertas e os velhos Sentados em seus tamboretes Puxando e tragando fumo como quem medita A casa, um caos de louça suja e roupa jogada nos cantos Mas sobre a mesa, uma manga madura A menina pega uma faca, Corta a casca em tiras simétricas Nesse momento, a luz é morna e vaporosa As duas fartam-se da fruta E sorriem em torno de um silêncio amarelo Percebe aquilo sobre esculpir o tempo? O cheiro do café, as mãos, a voz A eternidade através
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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