. .Clique aqui e receba notícias no seu WhatsApp Viaje (crónica a Neruda) Onde andas, poeta, como fantasma rosnando as tábuas do combês? Onde você passeia, leve, cometa entre as cores dos comerciantes e das casas penduradas nas escarpas? Onde choras, líquido, no meio das ondas longas e geadas do Pacífico? Onde você planta, mágico, […]
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Viaje (crónica a Neruda)
Onde andas, poeta, como fantasma rosnando as tábuas do combês? Onde você passeia, leve, cometa entre as cores dos comerciantes e das casas penduradas nas escarpas? Onde choras, líquido, no meio das ondas longas e geadas do Pacífico? Onde você planta, mágico, seu coração nas pedras, gelatinas de ostras endurecidas? Onde você pulveriza, versificador, sua alma em estrelas, uvas bêbadas, cafés franceses? Onde amparas, amante, âncoras na vida, feira livre, do seu povo? Onde você espalha, rancheiro, as crinas dos seus cavalos, relinchos selvagens? Onde anjo, sem asas, sem religião, feito de renda branca da serra, palpas a pele dessas paredes? Aqui, poeta, aqui entre livros, mapas, bússolas, bananas cerâmicas e escadas, as pessoas te chamam, neste inferno de paixões, de ángel Nesta cidade feita de becos, peles, ondas, vinho, fumo, adegas, tecidos, sofrimentos, tortas, rochas que arranham o céu, milho e abacate nas bordas dos pratos, Pisco e pinga nos copos, funiculares ensandecidos Descubro, num instante, que amo o atômico explode da vida, Pedaços de pessoas esparramadas no pé da colina sortidos entre o sebo do porto, sentimentos espalhados sem cercas Descubro que amo cada cúpula dos seus alunos, Meias de lã, gravatas inglesas. encontradas no passado, periquitos de azul gritando alegrias e assistindo futuros nas fendas da arquitetura Descubro que amo cada lágrima que corre pelas fendas molhadas da montanha, vidro, cristal safira que penetra nos olhos para se envolver nos lençóis do Pacífico. Descubro que amo cada suspiro do seu ar, o cheiro pastoso do seu mercado, cada célula de tu marisco, cada ensaio de voo dos seus copos suados Descubro que amo cada afrecho de suas pedras cada dor do seu paraíso cada ritmo dos seus versos cada sentimento de entranhas, das putas e das guitarras, de janelas, de pinturas em paredes sem casca Onde, poeta, é permitido sonhar com esse prelúdio salgado desta doce sinfonia para a qual dessem o nome de Neruda? Aqui. Neste chão agarrado em Valparaíso, madeira de adega do mar sua casa de degraus de mastros eriçados, La Sebastiana.
Guatá significa caminhar na língua guarani. E nos nomeamos assim porque é este o verbo mais apropriado para distinguir o esforço humano na procura de conhecer a força das próprias pernas conjugada ao equilíbrio de tatear o tempo e o espaço.
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